terça-feira, 27 de abril de 2010

O insuportável silêncio dos bons...



Wires deixou por aqui uma mensagem do Luther King... E eu, que ando pensando e re-pensando certas coisas, e, sobretudo, as coisas erradas, recordei uma frase sua famosíssima: "O que me preocupa não é o grito dos maus. E sim o silêncio dos bons". De fato, o mundo contemporâneo padece de uma espécie de inércia da bondade. As pessoas boas, muitas vezes, se deixam estar em estados de afasia diante da desordem e do caos de nosso tempo. Será medo? Será comodismo? Será insegurança? Dúvida?
O que está acontecendo com os bons?
O que acontece com o bom bispo ou o bom sacerdote que silencia sobre o criminoso e desumano proceder de um religioso pedófilo?
O que acontece com o bom professor que silencia diante de sua degratante condição de trabalho e, perdido em si mesmo, começa a duvidar de sua competência em um Mundo onde a Educação escolar tornou-se cínica e decadente?
O que acontece com os bons policiais que temem os maus policiais e acabam contribuindo para que haja policiais cúmplices de bandidos ou mesmo policiais oprimindo gente honesta e transformando humilhação e tortura em rotina nas periferias?
O que acontece comigo? Quando penso que mereço um melhor emprego, com melhor salário, e esqueço - ainda que por um momento - que há pessoas comigo, no lugar onde estou, para junto a mim transformar situações indignas? O que acontece comigo quando penso em desistir da luta porque "ninguém mais" estaria preocupado com isto enquanto eu me estresso em vão?
O que acontece com a gente quando a gente cala diante da homofobia, do fundamentalismo religioso, da mentira, da lógica do lucro fácil, do machismo, do racismo?
O que acontece quando eu vejo educadores (auto-proclamados) deseducando e não intervenho?
O que acontece quando eu vejo educadores populares (auto-proclamados) fazendo persistir a diferença que oprime, o não-diálogo, o preconceito e a ausência de liberdade?
O que acontece quando os meus melhores amigos seguem por rumos lastimáveis e eu, serenamente, calo... esperando o melhor momento pra gente "tomar uma" e não precisar conversar sobre a Vida?
Eu, que falo tanto, lamentavelmente, silencio em momentos em que seria necessário e urgente gritar. Mas estou re-aprendendo...  O recolhimento da recuperação me trouxe, sem outra opção, silêncio e solidão. Às vezes, minhas visitas testemunham que continuo falando pelos cotovelos... mas intuo que a dor e o silêncio deixaram mais sábios até os cotovelos...
Não quero mais desperdiçar um fio de Vida!
Nem um fio de voz...
E, hoje, solenemente, eu grito "não"... Eu não estou aqui para engolir o veneno que sugerem que seja viver. Não vou engolir... O pouco de bondade que há em mim, vou cultivá-lo. E mandar às favas, cotidianamente, com teimosia, o que seja mal...
Que meu maior silêncio seja de oração! Que eu não me paralize pela omissão! Que eu esteja entre os atrevidos que ainda crêem que podem mudar o Mundo! Assim seja!

Um comentário:

Wires disse...

Pois é! A INDIGNAÇÃO é uma das formas de apresentar a conquista da consciência de si e para si. O Freire e o Gramsci já diziam isso melhor que eu. Belo texto, viu? Na produção estais melhor que antes, heim? Bjs