sábado, 3 de abril de 2010

Diários de Cadeira de Rodas


Como cantaria Cartola "quem me vê sorrindo, pensa que estou alegre...", o mais impressionante é que, quem me vê sorrindo, pensa certo: estou alegre. E não estou alegre por ter aderido ao "jogo do contente" desde o acidente, estou alegre porque tenho tido outras e novas chances de re-descobrir a Vida. Não é mera constatação de "sobrevivente", o que estou vivenciando é o tédio e o desafio de um tratamento e recuperação longos e exigentes. E, isto, as demoras e exigências, estranhamente tem contribuído para que eu construa uma felicidade diversa daquela dos comerciais de margarina e uma alegria diferente daquela que chega (pra logo passar...!) quando a gente está de pilequinho.
Percebo que eu posso ser paciente e viver sem pressa... Eu que andava contaminada por um sentimento de urgência inútil e angustiante: trabalhando muito, comendo rápido, lendo sem apreciar as palavras, estudando sem transformar informação em aprendizado, dormindo pouco, falando muito, gastando muito dinheiro, gastando tempo ao telefone ou na internet, saindo muito à noite, comendo qualquer coisa, me cercando de gente e confundindo amigos com "gente próxima"...
Como a pressa é inimiga da perfeição, estive vivendo superficialmente muitos dos meus dias - inclusive, o dia 14 de fevereiro...
Limitada, por força da necessidade de recuperação e das dores, a uma cama, pouca coisa me resta a não ser a introspecção, a reflexão, a leitura calma, o cochilo, as conversas desinteressadas (sem objetivos pragmáticos) com os amigos, o comer devagar, o acordar cedo e dormir cedo, a oração...
Estes momentos tem sido momentos de transformação interior. No corpo que espera e sofre, um espírito inquieta-se e pergunta o que foi feito da vida até aqui e, sobretudo, o que fazer adiante.
A cadeira de rodas não é, portanto, o veículo de minha imobilidade e limitação. Estou andando devagar e pouco, a cadeira de rodas é meu principal meio de locomoção... O quadril, as pernas, doem. O corpo nem sempre encontra posição confortável, seja deitada, sentada ou de pé...
Mas esta cadeira de rodas e, sobretudo, o fato de precisar dela, levam longe o meu pensamento. Estou realizando novas jornadas na imaginação... e, nestas viagens, tenho me humanizado. Descobri coisas sobre mim que eu não sabia. Refleti sobre coisas nas/das pessoas que nunca me havia dado tempo de fazer...
El comandante Ché dizia que "quando o extraordinário se torna cotidiano, é a Revolução"... Uma revolução germina por dentro e por fora de mim. Depois dessa cadeira de rodas, se eu me limitar às mediocridades do cotidiano e das estruturas, por certo, eu não tenho o mínimo de vergonha na cara!
Não se trata de buscar uma vida melhor, simplesmente. Tentarei ser melhor com a Vida...

Nenhum comentário: