quinta-feira, 25 de março de 2010

Um poema...

OFÍCIO

Não é coisa fácil a lida
de construir, gesto após gesto,
o riso nas bocas desacostumadas
ao contentamento das coisas simples...
E há de ser pesado
carregar sempre uma reserva de alegria
mesmo quando a alma, eclipsada,
se faz sombria...
Não é pra quem pede,
nem é pra quem busca,
o fruto flamejante e doirado
da tua labuta.
É só pra que sabe (ou intui)
inventar meninices
e resgatar, do fundo da infância,
a transparência
do riso que, um dia, trouxemos
nas bocas...

Há quem não entenda
e, por certo, há quem considere tolice
a magia às vezes desatenta,
às vezes tão séria,
de caçar borboletas ou vagalumes,
contar estrelas, catar conchinhas do mar...
Estes, certamente, há anos não vão ao circo.
Estes, mui provavelmente, pagam infindáveis
prestações bancárias a troco de vaidades...
Estes, não viajam nas jornadas imaginárias de seus filhos...
Estes, nem vale a pena a gente chamar
para armar a lona, arrumar o picadeiro
e ajeitar a Vida, mais justa e bela,
para que seja ela espetáculo,
teimoso e inquieto,
da invenção cotidiana da alegria...!


Luciana Cavalcanti
Março de 2010, em chegando o Dia do Circo...

3 comentários:

gizelle disse...

Puxa!LUCIANA não faz tanto tempo assim, que erámos criançaskkkkkkk NÃO É VERDADE?mas,como é bom lembrar desses momentos que por um instante nos traz grandes felicidades. A criança em si é um espetáculo da vida;
É renovação de espírito;
É o anseio de nossa alma;
É a esperança contida...
Não é uma pena que a gente só descubra a infância depois que ela passou? Que ela seja como um sonho de que só temos consciência quando acordamos, já adultos? Ah, se pudéssemos retornar o sonho, tão próximo e tão distante, interrompido pela vida, para revivê-lo plenamente, com a consciência, com os sentidos despertos.

Cleiton Orman disse...

Muuuuiiitooooo Lindo, Mais muito lindo mesmo Lu.
Cheguei até me emocionar companheira!
E tive varias idéias com ela. Se funcionar depois te conto.

Não vou me adentrar(agora) nas palavras desse poema( que por sinal são lindas). A principio vou senti-las, mas assim que a revolução me der um tempo pra falar sobre os risos das nossas conquistas, irei e contar boas historias. seja por um gesto, por palavras ditas, escritas ou sentidas...

E Assim, vou ficando por aqui!!!!

" Não há, ó gente ó não...
lugar como este
no sertão"

Engraçado, eu ainda nem sair do meu barraquinho! mas, já sinto saudades.

Vou aproveitar os restinhos dos dias que tenho como favelado, `
Porque, quando começarem o processo de higienização mundial...
'Favelado' vai ter outro nome.

E de verdade, eu não sei se vou ser mais feliz quando nos colocarem nesses caixotes.

Logo me remeto a uma lembrança que tive a um tempo atrás.

" A comunidade do Pilar, como está sendo chamada hoje, e acredito eu, que é assim que vai ser chamada daqui pra frente.

Também foi bastante conhecida como Favela do Brum, até hoje muita gente se refere a esse paraíso. por esse nome "BRUM".

Mais o que eu queria comentar era sobre o 3º nome que denominaram. ha esse pequeno pedaço de terra. que valhe trilhões de euros, Mas que para "nós" possui um valor infinitamente incalculavel.

Esse terceiro nome se chamava favela do RATO,
devido ao alto indice de roedores que tinha na região, por causa da fabrica do Moinho. que na epoca trabalha com grão que atraia os "bichinhos" pra localidade.

e hoje, é como se a PCR tivesse armado umas RATUEIRAS no Brum, e agora os roedores(população). tivesse que evacuar a area pq se deu inicio o processo de detetização do local, e quando concluirem toda higiene social, irão nos colocar em seus cativeiros. ( Uma especie de caixotes de pedra que ira substituir as plantas flores e frutos do PARAÍSO CHAMADO FAVELA.

'E assim, adormece esse homem/menino...
que nunca precisa dormir pra sonhar
Porque, não há sonho mais lindo
do que sua terra,
não há!!!

Boa Noite Companheira.

Proxima vez que eu for te visitar vou fezer tu dançar o Reboleshom.
(nem sei se escreve assim, mas sei como é a dançinha, e pra o inicio de uma fisioteparia ludica... o que vale é o movimento).
kkkkkkkkkkk...

Luciana Amâncio disse...

Cleiton, querido!!Amadíssimo...

"E assim,vou ficando por aqui"... E continua!!! Continua... E como, continua!

Estas tuas palavras falando da nossa favela, de teu amor (este amor que nos enche, tantas vezes, de indignação)pelo teu chão: uma lua que é mais bonita vista da janela de nossa casa, uma certeza de que não há sonho mais lindo do que a terra, terra conquistada, de um homem trabalhador... "não há sonho mais lindo" certamente do que viver em nossa chão, com liberdade.

Emocionei-me também, de cá...!

E é claro que tu sabes que o poema (com toda a sua simplicidade, buscando falar da infância e do teu ofício, tão puro, mágico, de trazer pelas mãos novamente os meninos/as que moram em nós) nasceu de você, de teu sorriso, tua presença e até... da tua lezeira!!! Tu é gente bonita de mermo! E o teu circo é caravana a chegar o tempo inteiro, espalhando poesia, e re-acendo a menina que fui...

Deus te ilumine, meu amado amigo!
Paz e Bem!