quarta-feira, 24 de março de 2010

Cartas para minha irmã...

O coração age, às vezes, tentando convencer-nos de que é a razão quem age... Eu lembro que, durante a infância, e depois até (confesso...) a presença de minha irmã no escuro do quarto espantava para longe as sombras e dissolvia os fantasmas de medos reais ou inventados. Segurava-lhe a mão, ainda que sem acordá-la... Tranquilizava-me. Dormia novamente...  Após o acidente, quando as equipes de paramédicos começaram a tentar contatar minha família, pedi a um amigo, o Xandy, para fazer uma ligação que, para fins pragmáticos, seria inútil: "deixa eu ligar pra minha irmã, Xandy...!". E lá fizemos um interurbano. Claro, sei que a palavra da minha irmã mais velha deixaria mamãe menos inquieta ante a notícia de um acidente comigo - mamãe desconfia, com certa razão, dos eufemismos de sua filha boêmia e "doida", a filha "freira" não lhe mentiria sobre algo tão sério...!
Mas, agora, depois que "amanheceu"... pensei: talvez, tenha sido o gesto, inseguro, mas confiante, de estender as mãos e tocar outra mão, buscando conforto e a certeza de que não estou só...
Segurei-lhe, de certo modo, a mão. E falei-lhe do sonho mal como que para esquecer o sonho e poder recuperar a paz... Embora não estivesse perturbada, precisava de mais forças. Preciso.
A Vida, passando naqueles ditos "filmes" diante de nossos olhos, faz estremecer os mais destemidos. Vida e morte. A incerteza da saúde. A dúvida. O corpo fragilizado. A dor... A incontornável força dos limites e fragilidades do corpo. Poucas vezes vivi algo tão forte. Poucas vezes a Vida me foi tão clara em sua força e beleza... desejei-a com alegria e esperança, pensando que a dor sinalizava a vida pulsante no corpo. E quis viver - apesar dos quilômetros de distância - aquele momento, de retomar a vida nas mãos, com minha irmã querida que tanto ansiou, um dia, ter uma irmãnzinha...
A Vida é este milagre que inventa irmãos, entre lágrimas e risos, mas sempre espantando os pesadelos e alavancando sonhos!

Um comentário:

Ana Karla disse...

Isso não se faz, Irminha...
Como eu faço com minha mania de "não gostar de chorar em público"?
Que texto bonito! Assim fica difícil "viver o momento presente",kkkk
Não vejo a hora de ir ver você e companhia...
Obrigada por fazer de mim uma "musa" inspiradora...
Beijo!