quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Um certo dia... no caminho do mar.

Assumo os riscos. Viver é bom... Sobretudo, viver sem interditos. Aprendizado mais acertado (e, continuamente, renovado) o de não guardar a vida para depois. Aprender a enxergar na morte um imperativo: viva! Mais forte: Viva, pôrra! E não guarde a vida para depois... Não guarde a fome para depois. Não guarde a sede que a pele sente de mar. Não deixe para ouvir aquela música depois. Não esconda os cabelos do vento. Não se esconda do sol... Filosofia de bar? Discurso de auto-ajuda?!? Pode parecer... Mas, às vezes, intuo que o prazer de viver que alguns abraçam não passa de verniz. Verniz de gosto de viver em madeira podre...
Eu fiz um trato com minha vida: quando ela não faz mais minha cabeça, eu mudo. Simples assim... Pra quê complicar? Peço demissão, abandono o curso, deixo o partido... vou embora. Mas há, ainda, outro princípio: cumprir as vontades. Ora, se a gente trabalha e estuda com dedicação e responsabilidade (mesmo quando cansa...), como vai se esquivar justamente das vontades? Besteira!!! Por isso, eu corro e vou ao mar... O mar me diz. Sempre escuto.
Hoje, em meio às confusões (não poucas, de pesquisa...), eu senti sede e fome de mar. As retinas querendo o horizonte onde mar e céu simulam um beijo... Não me esquivei. Mas o caminho do mar, feito de ônibus, me trouxe uma dessas porradas que a gente leva da vida. Literalmente. Foram segundos: eu estava pensando na morte da bezerra, depois, pensando "cadê meus óculos?", "me quebrei?", "tô sagrando?"... Um "Dois Carneiros" bateu (forte!) no "CDU" e, então, a gente comprovou (mecânica dos corpos) a Lei da Inércia: impacto e quase vôo. Doeu. Nos brevíssimos segundos em que você constata o que aconteceu, eu pensei "que merda!" e ri no canto da boca. Enquanto ia lá atrás verificar se tinha alguém mais machucado para ajudar, pensava que era um aviso da vida dizendo (letras garrafais e vermelhas): você não vai viver pra sempre... Não vou. Eu sei. Qualquer porrada num ônibus, em um lugar menos protegido e com mais azar e... foi-se! Eu chamar-me-ia "Saudade". Assim, recuperados os óculos escuros (dos quais estou pagando a última prestação), apertadas as costas e barriga, constatada a ausência de sangramento, não telefonei para ninguém avisando, segui meu caminho e fui fazer o que queria.
Tomando a primeira cerveja, descobri que o Leandro do Caldinho (ah, aquele caldinho de Boa Viagem!) estava no ônibus de trás e soube do estado dos passageiros do outro ônibus. Olhei o mar, ali, bonito, simples e imponente feito em canção de Caymmi... Tomei outra cerveja, rascunhei uns poemas. E acreditei na sorte. Que bom que eu tenha entendido a fala da vida, pedindo um abraço estreito e urgente.
Depois, eu dividi com alguns amigos a narrativa do evento e a tranquilidade desleixada que me fez não ir ao médico. Mas irei. Irei porque está doendo agora: cabeça, abdomên e a perna direita, me fazendo mancar inevitavelmente. Trabalhei no dia de hoje, ainda. Mas não consegui dar aula... Consegui, no entanto, não perder a fome. E, fome instalada, a gente decide o que vai matá-la. Hamburguer do Raul Seixas: sanduíche com nome de música. O meu? "O Homem" e, então, o moço do trailer pergunta "o seu Homem é completo?" e, eu, "e não seria?!?"...
Porradas todo mundo leva na vida, afinal. O desafio é aprender com as porradas. E tinha um bar no meio do caminho, no meio do caminho tinha um bar... Sentei para conversar cinco minutinhos com um amigo, não tomei a quarta cerveja do dia, levantei e vim pensando em postar este relato, terminando com o que decidi descendo do ônibus: quando a vida brecar e eu sentir a porrada final, quero levar um risinho cínico, a certeza de que eu assumi as vontades... e vivi.
 
 
Em 20 de Dezembro de 2006.

Um comentário:

Poeta Carlos Maia disse...

Eu sou igualzinho a vc, Lú!
Como diria Erickson Luna, "eu não me deixo pra depois!"
Perto de completar 51 (uma boa idéia), se tivesse que voltar ao útero materno e viver toda a minha vida novamente, eu faria tudo do mesmo jeitinho!
Eu me arrependo do que não fiz, do que fiz nunca!
Posso dizer como Pablo Neruda:
"Confesso que Vivi!"

Beijo Grande!