domingo, 23 de agosto de 2009

Caminho de abraço



Do amor, a medida,

se diz em profundidade

no sangue

da abraçada ferida.


Ali, bem ali,

é onde dói!


Mas é ali que tu irás

porque é ali onde és.


E és livre

não por decisão do Mundo,

não pela história

em movimento-inércia.


És livre

precisamente quando

sabes e podes recusar

liberdades de consessão

ou por decreto...


És livre em caminho torto,

em caminho roto,

porque hoje o justo

nem sempre é reto.


[Recife,19/08/2009]

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

[um filho, um livro, uma árvore]



receitas de eternidade


para fazer a Vida
que, em cada instante,
é infinita ,
renovar-se em parto permanente,
não há segredo:
há que se fazer enraizado e raiz,
há que se tornar sempre mais imanente.

(agosto de 2009)

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

(porque sabia que irias embora)

prece ao futuro


de carne e crenças
é feito este ser caminhante
que percorre as ruas
como se fossem frutas
degustadas
à tardinha depois de tirá-las
das árvores com as próprias mãos.

de risos e lágrimas
se enchem esses olhos
que percorrem paisagens
como se fossem rostos
desejados
de amores perdidos
que regressam despretenciosamente...

[hai kai]


ouvido-de-mercador:

Se desafino
ou acerto o tom,
tu nem notas.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

- Recife, cidade lendária...





Capibeirando os meus olhos,
explodiu a beleza que se mostrava
sem margens,
sem divisões...
Inteira, a beleza de uma cidade que grita
através de seu desenho urbano:
Recife quer ser ponte.

Nada mais se separe...
Homens, peixes, carangueijos, manguezais,
componham um desenho multicolorido
onde tudo é humano
corrigindo os desacertos
daquilo que separa e divide
o homem de seu semelhante,
de sua terra,
de seu rio.

- Recife, quero ser ponte!


(poema-de-tanto-olhar, por hora, sem nome. Olhando as fotografias que meus olhos, certa tarde, pediram, enxerguei mais uma vez minha cidade: mais poética que os versos que a cantam...)

De Mário...

Nos salões do sonho


Mas vocês não repararam, não?!
Nos salões do sonho nunca há espelhos...
Por quê?
Será porque somos tão nós mesmos
Que dispensamos o vão testemunho dos reflexos?
Ou, então
- e aqui começa um arrepio -
Seremos acaso tão outros?
Tão outros mesmos que não suportaríamos a visão daquilo,
Daquela coisa que nos estivesse olhando fixamente do outro lado,
Se espelhos houvesse!
Ninguém pode saber... Só o diria
Mas nada diz,
Por motivos que só ele conhece,
O misterioso Cenarista dos Sonhos!



[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]