segunda-feira, 27 de outubro de 2008

- Dança comigo!

último tango,
primeiras notas.
o amor não ensaia passos,
vai ao centro do salão,
se mostra,
traz um riso que não se desmancha
(como o quereria qualquer aeromoça)


último tango:
aquilo que termina,
pode começar outra vez...
o amor não entrega os pontos
e desconhece, entre os pontos, o final.



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Luciana Cavalcanti (Setembro de 2008)

.boa vista.

Quando tu passas, menino,
olha que o desejo me assanha
esta vontade imensa
de ser o que não sou...
Vontade de te dizer
coisas que te fariam corar.
Vontade de já não ter
compostura alguma,
nem vergonha na cara.
E vejo-me como os velhos bêbados,
que já não são,
já não têm mais nada,
e ao ver passar
uma menina-flor pela calçada,
desejariam que viesse nua!
[Luciana]
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Quando o pudor é um blefe...

Você vai ter que ser feliz também...


No Colo Da Serra



[Toquinho / Vinicius de Moraes]



Uma casinha qualquer no colo da serra,

Um palmo de terra pra se plantar.

Um colo de uma mulher, uma companheira,

Uma brasileira pra se amar.



Se eu tiver que lutar, vou é lutar por ela.

Se eu tiver que morrer, vou é morrer por ela.

Seu eu tiver que ser feliz,

Você vai ter que ser feliz também.



Homens vieram da noite em gritos de guerra,

Feriram a terra, o céu e o mar.

Homens ficaram no chão mirando as estrelas,

Mas sem poder vê-las no céu brilhar.



E o que mais prometer aos herdeiros da vida,

E que versos fazer à mulher concebida.


E quando alguém morrer,

Assim vai ser a morte pra mim também.



E que versos fazer

À mulher concebida.

Se eu tiver que morrer,

Vou morrer pela vida.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

>>Deleuze e Guatarri<<

Lembranças de um teólogo. — A teologia é muito estrita no seguinte ponto: não há lobisomens, o homem não pode devir animal. É que não há transformação das formas essenciais, essas são inalienáveis e só mantêm entre si relações de analogia. O diabo e a feiticeira, e seu pacto, não são menos reais, pois há a realidade de um movimento local propriamente diabólico. A teologia distingue dois casos que servem de modelo para a Inquisição, o caso dos companheiros de Ulisses e o caso dos companheiros de Diomedes: visão imaginária e sortilégio. Ora o sujeito pensa que se transformou em bicho, porco, boi ou lobo, e os observadores também acreditam nisso; mas há aí um movimento local interno que leva as imagens sensíveis em direção à imaginação e as faz ricochetear sobre os sentidos externos. Ora o demônio "assume" corpos de animais reais, mesmo que tenha que transportar os acidentes e afectos que lhes acontecem a outros corpos aparentes (por exemplo, um gato ou um lobo, assumidos pelo demônio, podem receber feridas que serão exatamente transferidas para um corpo humano ). É um modo de dizer que o homem não se torna realmente animal, mas que há no entanto uma realidade demoníaca do devir-ani-mal do homem. Também é certo que o demônio opera transportes locais de toda espécie. O diabo é transportador, ele transporta humores, afectos ou mesmo corpos (a Inquisição não transige quanto a essa potência do diabo: a vassoura da feiticeira, ou "que o diabo te carregue"). Mas esses transportes não ultrapassam nem a barreira das formas essenciais, nem a das substâncias ou sujeitos.