domingo, 28 de setembro de 2008

O sábio
(1998, Recife)


Em vão esperas.
Ninguém te responderá.
Ninguém sabe.
E todos se perguntam:
“ O quê? Quando? Como? Onde? Por quê?”
E tu?
Tu também não sabes...
E finges calma, tranqüilidade.
Nada sabes.
Em vão buscas ciência,
Em vão sabedoria.
Enquanto isso, ao teu redor,
Ninguém se cala:
“Onde? Quando? Por quê? Como? O quê?”
E tu, já angustiado,
Gritas agora, e cada vez mais alto:
“Eu sei! Eu sei!”
Não sabes.
Mas finges saber...
E evitas o teu silêncio.
Por quê?
A Escolha
(1997, Colônia Leopoldina – Alagoas)



Não há caminho certo.
Não há regra sem exceção.
Não há segurança.
No entanto, há uma clara certeza
De que nada pode ser previsto,
De que o novo não pode ser julgado
já que não é conhecido.
No mais,
Existe a inércia
E o risco de se tornar maldito...
Carta de renúncia
(Luciana Cavalcanti, Agosto de 1998: Recife)




Eu, de meus medos e buscas consciente,
ao racionalismo de um amor sociável,
renuncio, neste instante, solenemente.

Renuncio
ao nobre conceito de relação estável
-conceito baseado em formalidades, unicamente.
Nego-me a buscar no outro um perfil (recomendável).

E, considerando a liberdade um inviolável direito,
apresento uma nova lei
para reger Vida e Sentimento:
“Que se rompa toda barreira e preconceito.”
“Que prevaleça a soberania da alegria, do contentamento.”
“E todo aquele que violar a referida lei esteja sujeito
à solidão, pesar e lamento.”

Não buscarei segurança
(por ser uma força avessa à ousadia).
Tampouco buscarei sossego...
Antes, quero a inquietude!
Quero a busca ansiosa de redescoberta,
de recomeço...

Doravante, no amor, me valerá o Ilogismo,
o Sonhadorismo,
o Inquietismo.

Rio-me, agora, da hipocrisia de tantos
que, em nome do nobre e correto, apedrejarão
frutos da pureza e sinceridade, da mutualidade una.

Por fim, renuncio,
sem sombras de medo ou dúvida,
ao amor mais bem-social que sentimento
e mais sensato que feliz.
Senso de humor é o sentimento que faz você rir daquilo que o deixaria louco de raiva se acontecesse com você.
(Barão de Itararé)

.do fundo da gaveta.

O Gênesis

Ressaca moral deve ter tido Deus, no dia seguinte à Criação do Homem. Consta no Gênesis, porém, que o criador descansou... Mas esta narração não anula a ressaca. Estaria lá o criador, largado em alguma divina poltrona, bolsa de gelo na cabeça, tomando algum chá que lhe foi ensinado pelo avô...Não! Deus não tem avô. Mas, enfim, tomando chá, água de côco e pensado na mancada – imensa – de haver criado a humanidade.
E a tradicional pergunta: “por que é que eu fui fazer aquilo tudo?!”. Nenhum bêbado pensa a relação custo-benefício de sua farra, mas na ressaca, são avaliados os cheques no Bar, o carro batido, o telefonema para um ex-amor no meio da madrugada do telefone celular...! Assim, foi Deus... O Homem estava ali, criado, imagem e semelhança de um Deus equivocado( e narcisista).
O Homem, um Grande espelho que, depois, apresentaria lá seus defeitos de fábrica. Onisciente, Senhor do Tempo, o Criador tratou logo de amarrar o sujeitinho pelo limite.
O pecado original foi o primeiro fenômeno de Marketing, uma técnica grosseira, apelando para o que, depois, batizariam “pecado capital”, a Inveja – como a propaganda das tesourinhas que aporrinharam minha infância: “eu tenho, você não tem- nhê!!!”
A árvore do Bem e do Mal lá, misteriosa, única. Um “não pode” convidativo – toda proibição é, afinal, convidativa! Eva foi lá e já viu... Adão só esperando que ela fosse primeiro para depois apelar para o “sei lá, coisa de mulher... Me convenceu”. Pronto!
Castigos: o trabalho, suado, interminável, escravizante. E a dor do parto...Como se o Criador quisesse eternizar a agonia da Criação. O Homem calo, doído, angustiante.
Imagem e Semelhança... Que rótulo dispensável! O Homem, fotocópia...
Tratou o Homem, já conhecedor do Bem e do Mal, de criar uma identidade própria: Como a empresa herdada do pai em que o cidadão cria prontamente “um novo conceito de Administração”, “uma nova filosofia de produção”. Pois é, deu no que deu.
Criatura e Criador passaram, então, ao mais dramático conflito de Gerações: a História. Um eterno: “Oô Pai, pega no meu pé não, tá?!”
Hoje, mais amadurecido, o Criador percebeu que o Homem pode ser até divertido. Por isso, genialmente, alguém afirmou um dia: “Enquanto o homem sonha, Deus ri”.
... Mas a ressaca! Ah, esta foi profunda. Dessas de gerar a promessa: “Vou deixar de beber”.
Luciana Cavalcanti, em alguma aula no Centro de Filosofia e Ciências Humanas (aula à qual, evidentemente, eu não assisti direito...), em 1999: Recife, Várzea do Capibaribe-Cidade Universitária.

terça-feira, 9 de setembro de 2008














Imagem: C. Bresson.
O labirinto
Jorge Luís Borges

Este é o labirinto de Creta. Este é o labirinto de Creta cujo centro foi o Minotauro. Este é o labirinto de Creta cujo centro foi o Minotauro que Dante imaginou como um touro com cabeça de homem e em cuja rede de pedra se perderam tantas gerações. Este é o labirinto de Creta cujo centro foi o Minotauro, que Dante imaginou como um touro com cabeça de homem e em cuja rede de pedra se perderam tantas gerações como Maria Kodama e eu nos perdemos. Este é o labirinto de Creta cujo centro foi o Minotauro, que Dante imaginou como um touro com cabeça de homem e em cuja rede de pedra se perderam tantas gerações como Maria Kodama e eu nos perdemos naquela manhã e continuamos perdidos no tempo, esse outro labirinto.
(Atlas - tradução de Miguel Angel Paladino)
Para Viver Um Grande Amor


Vinicius de Moraes


Para viver um grande amor, preciso é muita concentração e muito siso, muita seriedade e pouco riso — para viver um grande amor.Para viver um grande amor, mister é ser um homem de uma só mulher; pois ser de muitas, poxa! é de colher... — não tem nenhum valor.
Para viver um grande amor, primeiro é preciso sagrar-se cavalheiro e ser de sua dama por inteiro — seja lá como for. Há que fazer do corpo uma morada onde clausure-se a mulher amada e postar-se de fora com uma espada — para viver um grande amor.
Para viver um grande amor, vos digo, é preciso atenção com o "velho amigo", que porque é só vos quer sempre consigo para iludir o grande amor. É preciso muitíssimo cuidado com quem quer que não esteja apaixonado, pois quem não está, está sempre preparado pra chatear o grande amor.
Para viver um amor, na realidade, há que compenetrar-se da verdade de que não existe amor sem fidelidade — para viver um grande amor. Pois quem trai seu amor por vanidade é um desconhecedor da liberdade, dessa imensa, indizível liberdade que traz um só amor.
Para viver um grande amor, il faut além de fiel, ser bem conhecedor de arte culinária e de judô — para viver um grande amor.
Para viver um grande amor perfeito, não basta ser apenas bom sujeito; é preciso também ter muito peito — peito de remador. É preciso olhar sempre a bem-amada como a sua primeira namorada e sua viúva também, amortalhada no seu finado amor.É muito necessário ter em vista um crédito de rosas no florista — muito mais, muito mais que na modista! — para aprazer ao grande amor. Pois do que o grande amor quer saber mesmo, é de amor, é de amor, de amor a esmo; depois, um tutuzinho com torresmo conta ponto a favor...
Conta ponto saber fazer coisinhas: ovos mexidos, camarões, sopinhas, molhos, strogonoffs — comidinhas para depois do amor. E o que há de melhor que ir pra cozinha e preparar com amor uma galinha com uma rica e gostosa farofinha, para o seu grande amor?
Para viver um grande amor é muito, muito importante viver sempre junto e até ser, se possível, um só defunto — pra não morrer de dor. É preciso um cuidado permanente não só com o corpo mas também com a mente, pois qualquer "baixo" seu, a amada sente — e esfria um pouco o amor. Há que ser bem cortês sem cortesia; doce e conciliador sem covardia; saber ganhar dinheiro com poesia — para viver um grande amor.
É preciso saber tomar uísque (com o mau bebedor nunca se arrisque!) e ser impermeável ao diz-que-diz-que — que não quer nada com o amor. Mas tudo isso não adianta nada, se nesta selva oscura e desvairada não se souber achar a bem-amada — para viver um grande amor.

Texto extraído do livro "Para Viver Um Grande Amor", José Olympio Editora - Rio de Janeiro, 1984, pág. 130.

domingo, 7 de setembro de 2008

..olhos de ver o Mundo..



Por detrás das janelas





Quando me olhas com sono
E teus olhos,
Entre o reacostumar-se com a luz
E a possibilidade de continuar compondo
Imagens nas telas de sonhos,
Semicerram-se inquietamente...


Quando me olhas sem olhos,
O olhar assumido pelo sorriso,
Inteiro nos lábios que esboçam palavras
Desnecessárias a quem
Aprendeu a olhar-te quando olhas:
O corpo inaugurando sentidos nas coisas...


Quando me olhas ao despertar,
Teus olhos resistindo
Em abrir de uma vez e insistindo
Em dizer que me vês...
Quando me olhas assim, entendo
Que re-aprendo o Mundo
Por teus olhos de recém-nascido.



Luciana Cavalcanti - Recife, Várzea do Capibaribe, 03 de Setembro de 2008.
Pra Depois


27.08.2008 - L.A.C.



Forma
e conteúdo.
O poema, ensaiei-o métrico.
Esbocei rimas
e até colhi esperanças
pra não vê-lo cético.
No entanto, uma dor
(amorfa) intrometeu-se
nos versos,
entortou o poema.
mexeu as palavras
com a inquietude
de minha mãe ao mudar
o arranjo da mobília na sala.
Depois disso,
sem rima nem nada,
catei esperanças
sem êxito algum,
praguejei,
sofri,
cantei,
tentei seduzir a esperança
com versos,
mas ela nem deu trela.
Adiei, então, o poema
de amor
pra quando eu puder passar
denfronte ao teu sorriso
zombando de nossa dor.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

.mário.

BILHETE
Se tu me amas,
ama-me baixinho
Não o grites de cima dos telhados
Deixa em paz os passarinhos
Deixa em paz a mim!
Se me queres,enfim,
tem de ser bem devagarinho, Amada,
que a vida é breve, e o amor mais breve ainda...

Mário Quintana