sábado, 23 de agosto de 2008

Ficando peixes...

É peixe quando pula e descortina
a clara possibilidade de mudar de opinião
é peixe quando sem ligar a seta muda o rumo
inverte a coisa, embola o pensamento e então ...
é peixe quando o germe da loucura
se transforma em claridade e anda pela contramão
é peixe quando anda no oceano de quarenta correntezas
sem nenhuma embarcação
é peixe quando salta o precipício da responsabilidade
e tem uma queda pra ilusão
é peixe quando anda contra o vento, desafia o sofrimento
e carrega o mundo com a mão
é peixe quando a luz do misticismo
se transforma na procura do princípio e da razão
é peixe quando anda no oceano de quarenta correntezas
sem nenhuma embarcação


["aos filhos de peixes", de Oswaldo Montenegro]



INCENSO FOSSE MÚSICA

isso de querer ser
exatamente aquilo que a gente é
ainda vai nos levar além
[Paulo Leminski]

Imagens: Iansã, Narciso e uma supernova...

Você parece comigo...


Não quero andar sozinho por estas ruas

Sei do perigo que nos rodeia pelos caminhos

Não há sinal de sol, mas tudo me acalma

No seu olhar



Não quero ter mais sangue morto nas veias

Quero o abrigo do abraço que me incendeia

Não há sinal de cais, mas tudo me acalma

No seu olhar



Você parece comigo

Nenhum senhor te acompanha

Você também se dá um beijo, dá abrigo

Flor nas janelas da casa

Olho no seu inimigo

Você também se dá um beijo, dá abrigo

Se dá um riso, dá um tiro



Não quero ter mais sangue morto nas veias

Quero o abrigo do abraço que me incendeia

Não há sinal de paz, mas tudo me acalma

No seu olhar



Não quero ter mais sangue morto nas veias

Quero o abrigo da sua estrela que me incendeia

Não há sinal de sol, mas tudo me acalma

No seu olhar






(Texto da Música de T. Moura e Márcio Borges: "Cruzada"/Imagem: fotografia do cometa Halley, quando passou por Recife...)

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Ficando Peixes...

ATRASO PONTUAL
Ontens e hojes, amores e ódio,
adianta consultar o relogio?
Nada poderia ter sido feito,
a não ser o tempo em que foi lógico.
Ninguém nunca chegou atrasado.
Bençãos e desgraças
vem sempre no horário.
Tudo o mais é plágio.
Acaso é este encontro
entre tempo e espaço
mais do que um sonho que eu conto
ou mais um poema que faço?

[Paulo Leminski]


Vou sair correndo desta cidade em busca de um lugar qualquer onde possa escrever o poema da minha desgraça
Vou, porque já é demais para mim o espetáculo incessante da simulação e inexpressão das almas
Vou sair correndo, correndo... correndo pelas avenidas, pelas ruas, através os homens vestidos e as mulheres nuas
E os edifícios… vou sair, fugindo, fugindo dos olhares estéreis dos edifícios, correndo pelas ruas como um ladrão que se sentisse perseguido
Vou sair, vou movimentar toda essa gente fazendo com que me olhem, vou parar os carros fazendo com que não me matem, vou
Porque não posso mais desse irremediável – vou – tão maior e tão mais fraco do que eu mesmo, que me leva e me deixa gravado em todas as faces da vida...


["fuga e adágio", vinícius de morais]





“O amor que não dá certo dura mais”
(Fabrício Carpinejar)


- Que dizer?

Não esconder-me por trás da porta.
- O que pode a porta
a mais que um escudo de papel?
Não mais assistir imóvel
à dantesca reprodução de sombras
nas paredes deste teatro vazio.
Não mais parar.
Não mais chorar.
Não mais tremer.
Não mais erguer, implorando, as mãos
a um alto, Céu...
Fazer da Vida
o instante-agora
de negar (gritando) todas as mentiras
pelas quais perde-se dinheiro,
e tempo, sangue...
E liberdade, e gente!
Olhar fundo nos olhos
daquilo que assusta
e gritar "não".
E viver, até a última consequência,
o "basta"...
- Pra mim, chega!
Esse disparo errou o alvo
e acertou-me em cheio:
sangrou-me inteira,
abriu-se uma ferida...
E, agora, sei mais da Vida.
E, agora, sei reconhecer artimanhas de prisão,
de ocultação, de alienação,
de Morte.





(Várzea do Capibaribe, poema de Mãos trêmulas, após o assalto e o tiroteio... após estar presa, no meio do fogo cruzado)

Claridade...

Este poema foi escrito entre a quinta-feira, dia 03 e a sexta-feira, dia 04 de Julho... Era o poema que estava sobre a mesa de trabalho e que é citado numa crônica em que me queixo de tê-lo perdido. Pois bem...! Encontrei-o. Dentro de um livro de Ascenso Ferreira, "Catimbó - Cana Caiana - Xenhenhém" (coinscidência que fosse o mesmo livro que mostrei ontem na Livraria Cultura, em nova capa, absolutamente colorida). O título que o poema carrega em seu original, escrito em letras vermelhas, é "Cantiga de Claridade", mas penso que seja pertinente chamar "claridade" de "claridão" - dá uma idéia mais total. Claridão é uma claridade forte, firme, intransigente... Como é irreversível o escuro na escuridão.



Cantiga de claridão
Vida inteira,
aqui, transborda.
O sofrimento se esquece
de me entreter nos fins de tarde
com seu enfado e seu alarde.
Quando a noite é chegada,
em festa, de alegria solta,
é mais que vinho o que enche a taça,
é mais que espera o que move o corpo,
é mais que manhã o que a luz desperta
- antes que acordemos -
para nos flagrar o riso
do primeiro dia de nós...
(Luciana, Várzea do Capibaribe, poema-intuição-e-espera...)

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

.nascimentos.

Sempre que choro, nasço.
No curso de cada lágrima
traço
as rotas dum caminho
não anunciado.

Sem passagem,
os dias da viagem
me fazem estrada.

E sempre nasço quando caminho
em espaços sabidos
ou não...

Então, sei muitas coisas
novas
no abraço de ignorância sedenta
de andar
para olhar
e, outra vez, nascer pelos olhos
quando choro
e quando vejo,
quando os abro
ou quando os fecho,
por dentro ou por fora de mim.
Recife, Beberibe, 24 de julho de 2008.

...esgotado...

Decretar fechado o coração
como se fosse porta,
passiva a teu querer.


Declarar o coração refém
de teus medos todos,
do que é o teu não-ser.


Fechar o coração: não há mais espaços,
não há mais sonhos
e esgotou-se o tempo...


Correu-lhe entre os dedos, se esvaiu.
O tempo, na ausência da esperança,
vacilou, nem quis pensar...e fugiu!



___ __ __ __ __Luciana Cavalcanti - Recife. s/d.

Epígrafe aos "escritos de viagem"...




Poder dormir

Poder morar

Poder sair

Poder chegar

Poder viver

Bem devagar

E depois de partir poder voltar

E dizer: este aqui é o meu lugar

E poder assistir ao entardecer

E saber que vai ver o sol raiar

E ter amor e dar amor

E receber amor até não poder mais

E sem querer nenhum poder

Poder viver feliz pra se morrer em paz





["a terra prometida", Vinícius e Toquinho]