domingo, 24 de fevereiro de 2008



Travessia



Nada tenho
e navego,
mãos vazias e um desejo
carrego...
e tenho os olhos repletos de mar.

Nada tenho
e imagino,
mãos unidas e um desejo,
um desatino...
e tenho a boca escancarada de sonho.

Nada tenho
e atravesso
brancas nuvens e do desejo
me despeço...


Mas insistem minhas mãos, abertas ao céu!


Luciana Cavalcanti: 1995
Imagem: obra de Van Gogh

..MEDITAÇÃO..




TAIZé: Veni creator spirictus!
O poço


Espera ainda um pouco,
retarda o pranto e crê,
mesmo que por preservação apenas,
que não é o fim, que não há um fim.

- “Ah, por que tanto suor?”...
Não te perguntes!

Olha, silenciosamente,
o horizonte, onde em azuis entediantes
confundem-se céu e mar.

Sonho desfeito, dor certa,
necessidade de permanecer
sonhando...

Cala, agora. Pois,
além de eco,
nada fará a tua voz.
Luciana Cavalcanti: 1998
O poço (II)

Debruça o teu corpo
sobre o parapeito.
Olha a tua imagem
refletida na superfície da água turva,
na pouca água que há
no fundo do poço.

Esta tua vontade
de jogar-se ali dentro,
contenha - ao menos, por agora .
Se vês a imagem é porque há luz...
por mais que seja turva a água,
por mais que estejas turva tu.


Luciana Cavalcanti: 1998

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008



Obrigada, violinos!




Ela preocupava-se com os sons sutis dos violinos e com a urgência da Revolução. As injustiças assanhavam-lhe a inteligência aguda. O ardor militante, talvez, a tornasse densa se não fossem os violinos. Entre as lacunas e o peso imposto pelo sentimento do Mundo, de vê-lo faminto e sangrento, a harmonia era Música. E se impunha! Lorena era leve...
Aos dezoito anos, a afirmação de que se é comunista soa mais verdadeira e forte do que aos vinte e tantos. Acreditávamos na construção de uma contra-hegemonia, no socialismo democrático... Mas acreditávamos, sobretudo, na Poesia e na Música. Admirávamos, junto à poesia de Neruda, a sua trajetória militante: poeta e comunista. Partilhamos sua poesia desde os “Cadernos de Temuco” até “O Mar e os Sinos”.
O violino, tocado por mãos que assumiam bandeiras de lutas sociais, dissolveu, entre as rígidas certezas de adolescente militante, o ranço que se esboçava crescente dentro de mim pela Música Clássica. Abandonei a petulância de fazer análises sociológicas e tachar o clássico de aristocrático. Fiquei com o belo. Na descoberta do mundo, seriam necessários menos Materialismo Histórico e mais sensibilidade.
Por Neruda e pela revolução, mais que proletária, sensível, de quem aprecia os sons do mar, dos sinos e dos violinos, recordo minha amiga, hoje, professora de Filosofia do Direito ao tecer manhãs como esta em quadro cordas.



Obrigado, violinos, por este dia
De quatro cordas.
É puro o som do céu,
A voz azul do ar.


(Pablo Neruda: “Obrigado, violinos” in O Mar e os Sinos)





Recife, Várzea do Capibaribe: 10h 50 - Manhã de Fevereiro; com Vivaldi e chá de canela.
Imagem: Porto do Recife.