segunda-feira, 20 de outubro de 2008

>>Deleuze e Guatarri<<

Lembranças de um teólogo. — A teologia é muito estrita no seguinte ponto: não há lobisomens, o homem não pode devir animal. É que não há transformação das formas essenciais, essas são inalienáveis e só mantêm entre si relações de analogia. O diabo e a feiticeira, e seu pacto, não são menos reais, pois há a realidade de um movimento local propriamente diabólico. A teologia distingue dois casos que servem de modelo para a Inquisição, o caso dos companheiros de Ulisses e o caso dos companheiros de Diomedes: visão imaginária e sortilégio. Ora o sujeito pensa que se transformou em bicho, porco, boi ou lobo, e os observadores também acreditam nisso; mas há aí um movimento local interno que leva as imagens sensíveis em direção à imaginação e as faz ricochetear sobre os sentidos externos. Ora o demônio "assume" corpos de animais reais, mesmo que tenha que transportar os acidentes e afectos que lhes acontecem a outros corpos aparentes (por exemplo, um gato ou um lobo, assumidos pelo demônio, podem receber feridas que serão exatamente transferidas para um corpo humano ). É um modo de dizer que o homem não se torna realmente animal, mas que há no entanto uma realidade demoníaca do devir-ani-mal do homem. Também é certo que o demônio opera transportes locais de toda espécie. O diabo é transportador, ele transporta humores, afectos ou mesmo corpos (a Inquisição não transige quanto a essa potência do diabo: a vassoura da feiticeira, ou "que o diabo te carregue"). Mas esses transportes não ultrapassam nem a barreira das formas essenciais, nem a das substâncias ou sujeitos.

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