domingo, 28 de setembro de 2008

.do fundo da gaveta.

O Gênesis

Ressaca moral deve ter tido Deus, no dia seguinte à Criação do Homem. Consta no Gênesis, porém, que o criador descansou... Mas esta narração não anula a ressaca. Estaria lá o criador, largado em alguma divina poltrona, bolsa de gelo na cabeça, tomando algum chá que lhe foi ensinado pelo avô...Não! Deus não tem avô. Mas, enfim, tomando chá, água de côco e pensado na mancada – imensa – de haver criado a humanidade.
E a tradicional pergunta: “por que é que eu fui fazer aquilo tudo?!”. Nenhum bêbado pensa a relação custo-benefício de sua farra, mas na ressaca, são avaliados os cheques no Bar, o carro batido, o telefonema para um ex-amor no meio da madrugada do telefone celular...! Assim, foi Deus... O Homem estava ali, criado, imagem e semelhança de um Deus equivocado( e narcisista).
O Homem, um Grande espelho que, depois, apresentaria lá seus defeitos de fábrica. Onisciente, Senhor do Tempo, o Criador tratou logo de amarrar o sujeitinho pelo limite.
O pecado original foi o primeiro fenômeno de Marketing, uma técnica grosseira, apelando para o que, depois, batizariam “pecado capital”, a Inveja – como a propaganda das tesourinhas que aporrinharam minha infância: “eu tenho, você não tem- nhê!!!”
A árvore do Bem e do Mal lá, misteriosa, única. Um “não pode” convidativo – toda proibição é, afinal, convidativa! Eva foi lá e já viu... Adão só esperando que ela fosse primeiro para depois apelar para o “sei lá, coisa de mulher... Me convenceu”. Pronto!
Castigos: o trabalho, suado, interminável, escravizante. E a dor do parto...Como se o Criador quisesse eternizar a agonia da Criação. O Homem calo, doído, angustiante.
Imagem e Semelhança... Que rótulo dispensável! O Homem, fotocópia...
Tratou o Homem, já conhecedor do Bem e do Mal, de criar uma identidade própria: Como a empresa herdada do pai em que o cidadão cria prontamente “um novo conceito de Administração”, “uma nova filosofia de produção”. Pois é, deu no que deu.
Criatura e Criador passaram, então, ao mais dramático conflito de Gerações: a História. Um eterno: “Oô Pai, pega no meu pé não, tá?!”
Hoje, mais amadurecido, o Criador percebeu que o Homem pode ser até divertido. Por isso, genialmente, alguém afirmou um dia: “Enquanto o homem sonha, Deus ri”.
... Mas a ressaca! Ah, esta foi profunda. Dessas de gerar a promessa: “Vou deixar de beber”.
Luciana Cavalcanti, em alguma aula no Centro de Filosofia e Ciências Humanas (aula à qual, evidentemente, eu não assisti direito...), em 1999: Recife, Várzea do Capibaribe-Cidade Universitária.

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