quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008



Obrigada, violinos!




Ela preocupava-se com os sons sutis dos violinos e com a urgência da Revolução. As injustiças assanhavam-lhe a inteligência aguda. O ardor militante, talvez, a tornasse densa se não fossem os violinos. Entre as lacunas e o peso imposto pelo sentimento do Mundo, de vê-lo faminto e sangrento, a harmonia era Música. E se impunha! Lorena era leve...
Aos dezoito anos, a afirmação de que se é comunista soa mais verdadeira e forte do que aos vinte e tantos. Acreditávamos na construção de uma contra-hegemonia, no socialismo democrático... Mas acreditávamos, sobretudo, na Poesia e na Música. Admirávamos, junto à poesia de Neruda, a sua trajetória militante: poeta e comunista. Partilhamos sua poesia desde os “Cadernos de Temuco” até “O Mar e os Sinos”.
O violino, tocado por mãos que assumiam bandeiras de lutas sociais, dissolveu, entre as rígidas certezas de adolescente militante, o ranço que se esboçava crescente dentro de mim pela Música Clássica. Abandonei a petulância de fazer análises sociológicas e tachar o clássico de aristocrático. Fiquei com o belo. Na descoberta do mundo, seriam necessários menos Materialismo Histórico e mais sensibilidade.
Por Neruda e pela revolução, mais que proletária, sensível, de quem aprecia os sons do mar, dos sinos e dos violinos, recordo minha amiga, hoje, professora de Filosofia do Direito ao tecer manhãs como esta em quadro cordas.



Obrigado, violinos, por este dia
De quatro cordas.
É puro o som do céu,
A voz azul do ar.


(Pablo Neruda: “Obrigado, violinos” in O Mar e os Sinos)





Recife, Várzea do Capibaribe: 10h 50 - Manhã de Fevereiro; com Vivaldi e chá de canela.
Imagem: Porto do Recife.

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