segunda-feira, 27 de outubro de 2008

- Dança comigo!

último tango,
primeiras notas.
o amor não ensaia passos,
vai ao centro do salão,
se mostra,
traz um riso que não se desmancha
(como o quereria qualquer aeromoça)


último tango:
aquilo que termina,
pode começar outra vez...
o amor não entrega os pontos
e desconhece, entre os pontos, o final.



----------------------
Luciana Cavalcanti (Setembro de 2008)

.boa vista.

Quando tu passas, menino,
olha que o desejo me assanha
esta vontade imensa
de ser o que não sou...
Vontade de te dizer
coisas que te fariam corar.
Vontade de já não ter
compostura alguma,
nem vergonha na cara.
E vejo-me como os velhos bêbados,
que já não são,
já não têm mais nada,
e ao ver passar
uma menina-flor pela calçada,
desejariam que viesse nua!
[Luciana]
................................
Quando o pudor é um blefe...

Você vai ter que ser feliz também...


No Colo Da Serra



[Toquinho / Vinicius de Moraes]



Uma casinha qualquer no colo da serra,

Um palmo de terra pra se plantar.

Um colo de uma mulher, uma companheira,

Uma brasileira pra se amar.



Se eu tiver que lutar, vou é lutar por ela.

Se eu tiver que morrer, vou é morrer por ela.

Seu eu tiver que ser feliz,

Você vai ter que ser feliz também.



Homens vieram da noite em gritos de guerra,

Feriram a terra, o céu e o mar.

Homens ficaram no chão mirando as estrelas,

Mas sem poder vê-las no céu brilhar.



E o que mais prometer aos herdeiros da vida,

E que versos fazer à mulher concebida.


E quando alguém morrer,

Assim vai ser a morte pra mim também.



E que versos fazer

À mulher concebida.

Se eu tiver que morrer,

Vou morrer pela vida.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

>>Deleuze e Guatarri<<

Lembranças de um teólogo. — A teologia é muito estrita no seguinte ponto: não há lobisomens, o homem não pode devir animal. É que não há transformação das formas essenciais, essas são inalienáveis e só mantêm entre si relações de analogia. O diabo e a feiticeira, e seu pacto, não são menos reais, pois há a realidade de um movimento local propriamente diabólico. A teologia distingue dois casos que servem de modelo para a Inquisição, o caso dos companheiros de Ulisses e o caso dos companheiros de Diomedes: visão imaginária e sortilégio. Ora o sujeito pensa que se transformou em bicho, porco, boi ou lobo, e os observadores também acreditam nisso; mas há aí um movimento local interno que leva as imagens sensíveis em direção à imaginação e as faz ricochetear sobre os sentidos externos. Ora o demônio "assume" corpos de animais reais, mesmo que tenha que transportar os acidentes e afectos que lhes acontecem a outros corpos aparentes (por exemplo, um gato ou um lobo, assumidos pelo demônio, podem receber feridas que serão exatamente transferidas para um corpo humano ). É um modo de dizer que o homem não se torna realmente animal, mas que há no entanto uma realidade demoníaca do devir-ani-mal do homem. Também é certo que o demônio opera transportes locais de toda espécie. O diabo é transportador, ele transporta humores, afectos ou mesmo corpos (a Inquisição não transige quanto a essa potência do diabo: a vassoura da feiticeira, ou "que o diabo te carregue"). Mas esses transportes não ultrapassam nem a barreira das formas essenciais, nem a das substâncias ou sujeitos.

domingo, 28 de setembro de 2008

O sábio
(1998, Recife)


Em vão esperas.
Ninguém te responderá.
Ninguém sabe.
E todos se perguntam:
“ O quê? Quando? Como? Onde? Por quê?”
E tu?
Tu também não sabes...
E finges calma, tranqüilidade.
Nada sabes.
Em vão buscas ciência,
Em vão sabedoria.
Enquanto isso, ao teu redor,
Ninguém se cala:
“Onde? Quando? Por quê? Como? O quê?”
E tu, já angustiado,
Gritas agora, e cada vez mais alto:
“Eu sei! Eu sei!”
Não sabes.
Mas finges saber...
E evitas o teu silêncio.
Por quê?
A Escolha
(1997, Colônia Leopoldina – Alagoas)



Não há caminho certo.
Não há regra sem exceção.
Não há segurança.
No entanto, há uma clara certeza
De que nada pode ser previsto,
De que o novo não pode ser julgado
já que não é conhecido.
No mais,
Existe a inércia
E o risco de se tornar maldito...
Carta de renúncia
(Luciana Cavalcanti, Agosto de 1998: Recife)




Eu, de meus medos e buscas consciente,
ao racionalismo de um amor sociável,
renuncio, neste instante, solenemente.

Renuncio
ao nobre conceito de relação estável
-conceito baseado em formalidades, unicamente.
Nego-me a buscar no outro um perfil (recomendável).

E, considerando a liberdade um inviolável direito,
apresento uma nova lei
para reger Vida e Sentimento:
“Que se rompa toda barreira e preconceito.”
“Que prevaleça a soberania da alegria, do contentamento.”
“E todo aquele que violar a referida lei esteja sujeito
à solidão, pesar e lamento.”

Não buscarei segurança
(por ser uma força avessa à ousadia).
Tampouco buscarei sossego...
Antes, quero a inquietude!
Quero a busca ansiosa de redescoberta,
de recomeço...

Doravante, no amor, me valerá o Ilogismo,
o Sonhadorismo,
o Inquietismo.

Rio-me, agora, da hipocrisia de tantos
que, em nome do nobre e correto, apedrejarão
frutos da pureza e sinceridade, da mutualidade una.

Por fim, renuncio,
sem sombras de medo ou dúvida,
ao amor mais bem-social que sentimento
e mais sensato que feliz.
Senso de humor é o sentimento que faz você rir daquilo que o deixaria louco de raiva se acontecesse com você.
(Barão de Itararé)

.do fundo da gaveta.

O Gênesis

Ressaca moral deve ter tido Deus, no dia seguinte à Criação do Homem. Consta no Gênesis, porém, que o criador descansou... Mas esta narração não anula a ressaca. Estaria lá o criador, largado em alguma divina poltrona, bolsa de gelo na cabeça, tomando algum chá que lhe foi ensinado pelo avô...Não! Deus não tem avô. Mas, enfim, tomando chá, água de côco e pensado na mancada – imensa – de haver criado a humanidade.
E a tradicional pergunta: “por que é que eu fui fazer aquilo tudo?!”. Nenhum bêbado pensa a relação custo-benefício de sua farra, mas na ressaca, são avaliados os cheques no Bar, o carro batido, o telefonema para um ex-amor no meio da madrugada do telefone celular...! Assim, foi Deus... O Homem estava ali, criado, imagem e semelhança de um Deus equivocado( e narcisista).
O Homem, um Grande espelho que, depois, apresentaria lá seus defeitos de fábrica. Onisciente, Senhor do Tempo, o Criador tratou logo de amarrar o sujeitinho pelo limite.
O pecado original foi o primeiro fenômeno de Marketing, uma técnica grosseira, apelando para o que, depois, batizariam “pecado capital”, a Inveja – como a propaganda das tesourinhas que aporrinharam minha infância: “eu tenho, você não tem- nhê!!!”
A árvore do Bem e do Mal lá, misteriosa, única. Um “não pode” convidativo – toda proibição é, afinal, convidativa! Eva foi lá e já viu... Adão só esperando que ela fosse primeiro para depois apelar para o “sei lá, coisa de mulher... Me convenceu”. Pronto!
Castigos: o trabalho, suado, interminável, escravizante. E a dor do parto...Como se o Criador quisesse eternizar a agonia da Criação. O Homem calo, doído, angustiante.
Imagem e Semelhança... Que rótulo dispensável! O Homem, fotocópia...
Tratou o Homem, já conhecedor do Bem e do Mal, de criar uma identidade própria: Como a empresa herdada do pai em que o cidadão cria prontamente “um novo conceito de Administração”, “uma nova filosofia de produção”. Pois é, deu no que deu.
Criatura e Criador passaram, então, ao mais dramático conflito de Gerações: a História. Um eterno: “Oô Pai, pega no meu pé não, tá?!”
Hoje, mais amadurecido, o Criador percebeu que o Homem pode ser até divertido. Por isso, genialmente, alguém afirmou um dia: “Enquanto o homem sonha, Deus ri”.
... Mas a ressaca! Ah, esta foi profunda. Dessas de gerar a promessa: “Vou deixar de beber”.
Luciana Cavalcanti, em alguma aula no Centro de Filosofia e Ciências Humanas (aula à qual, evidentemente, eu não assisti direito...), em 1999: Recife, Várzea do Capibaribe-Cidade Universitária.

terça-feira, 9 de setembro de 2008














Imagem: C. Bresson.
O labirinto
Jorge Luís Borges

Este é o labirinto de Creta. Este é o labirinto de Creta cujo centro foi o Minotauro. Este é o labirinto de Creta cujo centro foi o Minotauro que Dante imaginou como um touro com cabeça de homem e em cuja rede de pedra se perderam tantas gerações. Este é o labirinto de Creta cujo centro foi o Minotauro, que Dante imaginou como um touro com cabeça de homem e em cuja rede de pedra se perderam tantas gerações como Maria Kodama e eu nos perdemos. Este é o labirinto de Creta cujo centro foi o Minotauro, que Dante imaginou como um touro com cabeça de homem e em cuja rede de pedra se perderam tantas gerações como Maria Kodama e eu nos perdemos naquela manhã e continuamos perdidos no tempo, esse outro labirinto.
(Atlas - tradução de Miguel Angel Paladino)
Para Viver Um Grande Amor


Vinicius de Moraes


Para viver um grande amor, preciso é muita concentração e muito siso, muita seriedade e pouco riso — para viver um grande amor.Para viver um grande amor, mister é ser um homem de uma só mulher; pois ser de muitas, poxa! é de colher... — não tem nenhum valor.
Para viver um grande amor, primeiro é preciso sagrar-se cavalheiro e ser de sua dama por inteiro — seja lá como for. Há que fazer do corpo uma morada onde clausure-se a mulher amada e postar-se de fora com uma espada — para viver um grande amor.
Para viver um grande amor, vos digo, é preciso atenção com o "velho amigo", que porque é só vos quer sempre consigo para iludir o grande amor. É preciso muitíssimo cuidado com quem quer que não esteja apaixonado, pois quem não está, está sempre preparado pra chatear o grande amor.
Para viver um amor, na realidade, há que compenetrar-se da verdade de que não existe amor sem fidelidade — para viver um grande amor. Pois quem trai seu amor por vanidade é um desconhecedor da liberdade, dessa imensa, indizível liberdade que traz um só amor.
Para viver um grande amor, il faut além de fiel, ser bem conhecedor de arte culinária e de judô — para viver um grande amor.
Para viver um grande amor perfeito, não basta ser apenas bom sujeito; é preciso também ter muito peito — peito de remador. É preciso olhar sempre a bem-amada como a sua primeira namorada e sua viúva também, amortalhada no seu finado amor.É muito necessário ter em vista um crédito de rosas no florista — muito mais, muito mais que na modista! — para aprazer ao grande amor. Pois do que o grande amor quer saber mesmo, é de amor, é de amor, de amor a esmo; depois, um tutuzinho com torresmo conta ponto a favor...
Conta ponto saber fazer coisinhas: ovos mexidos, camarões, sopinhas, molhos, strogonoffs — comidinhas para depois do amor. E o que há de melhor que ir pra cozinha e preparar com amor uma galinha com uma rica e gostosa farofinha, para o seu grande amor?
Para viver um grande amor é muito, muito importante viver sempre junto e até ser, se possível, um só defunto — pra não morrer de dor. É preciso um cuidado permanente não só com o corpo mas também com a mente, pois qualquer "baixo" seu, a amada sente — e esfria um pouco o amor. Há que ser bem cortês sem cortesia; doce e conciliador sem covardia; saber ganhar dinheiro com poesia — para viver um grande amor.
É preciso saber tomar uísque (com o mau bebedor nunca se arrisque!) e ser impermeável ao diz-que-diz-que — que não quer nada com o amor. Mas tudo isso não adianta nada, se nesta selva oscura e desvairada não se souber achar a bem-amada — para viver um grande amor.

Texto extraído do livro "Para Viver Um Grande Amor", José Olympio Editora - Rio de Janeiro, 1984, pág. 130.

domingo, 7 de setembro de 2008

..olhos de ver o Mundo..



Por detrás das janelas





Quando me olhas com sono
E teus olhos,
Entre o reacostumar-se com a luz
E a possibilidade de continuar compondo
Imagens nas telas de sonhos,
Semicerram-se inquietamente...


Quando me olhas sem olhos,
O olhar assumido pelo sorriso,
Inteiro nos lábios que esboçam palavras
Desnecessárias a quem
Aprendeu a olhar-te quando olhas:
O corpo inaugurando sentidos nas coisas...


Quando me olhas ao despertar,
Teus olhos resistindo
Em abrir de uma vez e insistindo
Em dizer que me vês...
Quando me olhas assim, entendo
Que re-aprendo o Mundo
Por teus olhos de recém-nascido.



Luciana Cavalcanti - Recife, Várzea do Capibaribe, 03 de Setembro de 2008.
Pra Depois


27.08.2008 - L.A.C.



Forma
e conteúdo.
O poema, ensaiei-o métrico.
Esbocei rimas
e até colhi esperanças
pra não vê-lo cético.
No entanto, uma dor
(amorfa) intrometeu-se
nos versos,
entortou o poema.
mexeu as palavras
com a inquietude
de minha mãe ao mudar
o arranjo da mobília na sala.
Depois disso,
sem rima nem nada,
catei esperanças
sem êxito algum,
praguejei,
sofri,
cantei,
tentei seduzir a esperança
com versos,
mas ela nem deu trela.
Adiei, então, o poema
de amor
pra quando eu puder passar
denfronte ao teu sorriso
zombando de nossa dor.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

.mário.

BILHETE
Se tu me amas,
ama-me baixinho
Não o grites de cima dos telhados
Deixa em paz os passarinhos
Deixa em paz a mim!
Se me queres,enfim,
tem de ser bem devagarinho, Amada,
que a vida é breve, e o amor mais breve ainda...

Mário Quintana

sábado, 23 de agosto de 2008

Ficando peixes...

É peixe quando pula e descortina
a clara possibilidade de mudar de opinião
é peixe quando sem ligar a seta muda o rumo
inverte a coisa, embola o pensamento e então ...
é peixe quando o germe da loucura
se transforma em claridade e anda pela contramão
é peixe quando anda no oceano de quarenta correntezas
sem nenhuma embarcação
é peixe quando salta o precipício da responsabilidade
e tem uma queda pra ilusão
é peixe quando anda contra o vento, desafia o sofrimento
e carrega o mundo com a mão
é peixe quando a luz do misticismo
se transforma na procura do princípio e da razão
é peixe quando anda no oceano de quarenta correntezas
sem nenhuma embarcação


["aos filhos de peixes", de Oswaldo Montenegro]



INCENSO FOSSE MÚSICA

isso de querer ser
exatamente aquilo que a gente é
ainda vai nos levar além
[Paulo Leminski]

Imagens: Iansã, Narciso e uma supernova...

Você parece comigo...


Não quero andar sozinho por estas ruas

Sei do perigo que nos rodeia pelos caminhos

Não há sinal de sol, mas tudo me acalma

No seu olhar



Não quero ter mais sangue morto nas veias

Quero o abrigo do abraço que me incendeia

Não há sinal de cais, mas tudo me acalma

No seu olhar



Você parece comigo

Nenhum senhor te acompanha

Você também se dá um beijo, dá abrigo

Flor nas janelas da casa

Olho no seu inimigo

Você também se dá um beijo, dá abrigo

Se dá um riso, dá um tiro



Não quero ter mais sangue morto nas veias

Quero o abrigo do abraço que me incendeia

Não há sinal de paz, mas tudo me acalma

No seu olhar



Não quero ter mais sangue morto nas veias

Quero o abrigo da sua estrela que me incendeia

Não há sinal de sol, mas tudo me acalma

No seu olhar






(Texto da Música de T. Moura e Márcio Borges: "Cruzada"/Imagem: fotografia do cometa Halley, quando passou por Recife...)

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Ficando Peixes...

ATRASO PONTUAL
Ontens e hojes, amores e ódio,
adianta consultar o relogio?
Nada poderia ter sido feito,
a não ser o tempo em que foi lógico.
Ninguém nunca chegou atrasado.
Bençãos e desgraças
vem sempre no horário.
Tudo o mais é plágio.
Acaso é este encontro
entre tempo e espaço
mais do que um sonho que eu conto
ou mais um poema que faço?

[Paulo Leminski]


Vou sair correndo desta cidade em busca de um lugar qualquer onde possa escrever o poema da minha desgraça
Vou, porque já é demais para mim o espetáculo incessante da simulação e inexpressão das almas
Vou sair correndo, correndo... correndo pelas avenidas, pelas ruas, através os homens vestidos e as mulheres nuas
E os edifícios… vou sair, fugindo, fugindo dos olhares estéreis dos edifícios, correndo pelas ruas como um ladrão que se sentisse perseguido
Vou sair, vou movimentar toda essa gente fazendo com que me olhem, vou parar os carros fazendo com que não me matem, vou
Porque não posso mais desse irremediável – vou – tão maior e tão mais fraco do que eu mesmo, que me leva e me deixa gravado em todas as faces da vida...


["fuga e adágio", vinícius de morais]





“O amor que não dá certo dura mais”
(Fabrício Carpinejar)


- Que dizer?

Não esconder-me por trás da porta.
- O que pode a porta
a mais que um escudo de papel?
Não mais assistir imóvel
à dantesca reprodução de sombras
nas paredes deste teatro vazio.
Não mais parar.
Não mais chorar.
Não mais tremer.
Não mais erguer, implorando, as mãos
a um alto, Céu...
Fazer da Vida
o instante-agora
de negar (gritando) todas as mentiras
pelas quais perde-se dinheiro,
e tempo, sangue...
E liberdade, e gente!
Olhar fundo nos olhos
daquilo que assusta
e gritar "não".
E viver, até a última consequência,
o "basta"...
- Pra mim, chega!
Esse disparo errou o alvo
e acertou-me em cheio:
sangrou-me inteira,
abriu-se uma ferida...
E, agora, sei mais da Vida.
E, agora, sei reconhecer artimanhas de prisão,
de ocultação, de alienação,
de Morte.





(Várzea do Capibaribe, poema de Mãos trêmulas, após o assalto e o tiroteio... após estar presa, no meio do fogo cruzado)

Claridade...

Este poema foi escrito entre a quinta-feira, dia 03 e a sexta-feira, dia 04 de Julho... Era o poema que estava sobre a mesa de trabalho e que é citado numa crônica em que me queixo de tê-lo perdido. Pois bem...! Encontrei-o. Dentro de um livro de Ascenso Ferreira, "Catimbó - Cana Caiana - Xenhenhém" (coinscidência que fosse o mesmo livro que mostrei ontem na Livraria Cultura, em nova capa, absolutamente colorida). O título que o poema carrega em seu original, escrito em letras vermelhas, é "Cantiga de Claridade", mas penso que seja pertinente chamar "claridade" de "claridão" - dá uma idéia mais total. Claridão é uma claridade forte, firme, intransigente... Como é irreversível o escuro na escuridão.



Cantiga de claridão
Vida inteira,
aqui, transborda.
O sofrimento se esquece
de me entreter nos fins de tarde
com seu enfado e seu alarde.
Quando a noite é chegada,
em festa, de alegria solta,
é mais que vinho o que enche a taça,
é mais que espera o que move o corpo,
é mais que manhã o que a luz desperta
- antes que acordemos -
para nos flagrar o riso
do primeiro dia de nós...
(Luciana, Várzea do Capibaribe, poema-intuição-e-espera...)

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

.nascimentos.

Sempre que choro, nasço.
No curso de cada lágrima
traço
as rotas dum caminho
não anunciado.

Sem passagem,
os dias da viagem
me fazem estrada.

E sempre nasço quando caminho
em espaços sabidos
ou não...

Então, sei muitas coisas
novas
no abraço de ignorância sedenta
de andar
para olhar
e, outra vez, nascer pelos olhos
quando choro
e quando vejo,
quando os abro
ou quando os fecho,
por dentro ou por fora de mim.
Recife, Beberibe, 24 de julho de 2008.

...esgotado...

Decretar fechado o coração
como se fosse porta,
passiva a teu querer.


Declarar o coração refém
de teus medos todos,
do que é o teu não-ser.


Fechar o coração: não há mais espaços,
não há mais sonhos
e esgotou-se o tempo...


Correu-lhe entre os dedos, se esvaiu.
O tempo, na ausência da esperança,
vacilou, nem quis pensar...e fugiu!



___ __ __ __ __Luciana Cavalcanti - Recife. s/d.

Epígrafe aos "escritos de viagem"...




Poder dormir

Poder morar

Poder sair

Poder chegar

Poder viver

Bem devagar

E depois de partir poder voltar

E dizer: este aqui é o meu lugar

E poder assistir ao entardecer

E saber que vai ver o sol raiar

E ter amor e dar amor

E receber amor até não poder mais

E sem querer nenhum poder

Poder viver feliz pra se morrer em paz





["a terra prometida", Vinícius e Toquinho]

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Se manhã, tarde ou noitinha é sempre cedo...

Domingo seja,
de novo e sempre,
dia de festa:
hora esperada,
o riso solto,
a casa aberta.



A festa seja,
domingo e sempre,
explosão de vida:
despretensiosa e definitiva
como estrada aberta.



Um caminho-viagem,
domingo seja passagem
da hora do riso
esperado e solto,
demasiado e pouco
porque riso que a Vida ri
nunca é à toa,
nunca é demais!



E domingo já nem é um dia,
um canto,
ou qualquer coisa esperada
se a Vida se ajeitou por dentro,
se a alegria hoje se sente em casa,
se toda a gente não precisa de mais nada
pra viver de rir.





...de você, sei quase nada...

"Quando o homem inventou a roda
logo Deus inventou o freio,
um dia, um feio inventou a moda,
e toda roda amou o feio"
Tire o seu piercing do caminho
Que eu quero passar
Quero passar com a minha dor
Pra elevar minhas idéias não preciso de incenso
Eu existo porque penso tenso por isso existo
São sete as chagas de cristo
São muitos os meus pecados
Satanás condecorado na tv tem um programa
Nunca mais a velha chama
Nunca mais o céu do lado
Disneylândia eldorado
Vamos nós dançar na lama
Bye bye adeus Gene Kelly
Como santo me revele como sinto como passo
Carne viva atrás da pele aqui vive-se à mingua
Não tenho papas na língua
Não trago padres na alma
Minha pátria é minha língua
Me conheço como a palma da platéia calorosa
Eu vi o calo na rosa eu vi a ferida aberta
Eu tenho a palavra certa pra doutor não reclamar
Mas a minha mente boquiaberta
Precisa mesmo deserta
Aprender aprender a soletrar
Tire o seu piercing do caminho
Que eu quero passar
Quero passar com a minha dor
Não me diga que me ama
Não me queira não me afague
Sentimento pegue e pague emoção compre em tablete
Mastigue como chiclete jogue fora na sarjeta
Compre um lote do futuro cheque para trinta dias
Nosso plano de seguro cobre a sua carência
Eu perdi o paraíso mas ganhei inteligência
Demência, felicidade, propriedade privada
Não se prive não se prove
Dont't tell me peace and love
Tome logo um engov pra curar sua ressaca
Da modernidade essa armadilha
Matilha de cães raivosos e assustados
O presente não devolve o troco do passado
Sofrimento não é amargura
Tristeza não é pecado
Lugar de ser feliz não é supermercado
Tire o seu piercing do caminho
Que eu quero passar
Quero passar com a minha dor
O inferno é escuro não tem água encanada
Não tem porta não tem muro
Não tem porteiro na entrada
E o céu será divino confortável condomínio
Com anjos cantando hosanas nas alturas nas alturas
Onde tudo é nobre e tudo tem nome
Onde os cães só latem
Pra enxotar a fome
Todo mundo quer quer
Quer subir na vida
Se subir ladeira espere a descida
Se na hora "h"o elevador parar
No vigésimo quinto andar der aquele enguiço
Sempre vai haver uma escada de serviço
Tire o seu piercing do caminho
Que eu quero passar
Quero passar com a minha dor
Todo mundo sabe tudo todo mundo fala
Mas a língua do mudo ninguém quer estudá-la
Quem não quer suar camisa não carrega mala
Revólver que ninguém usa não dispara bala
Casa grande faz fuxico
Quem leva fama é a senzala
Pra chegar na minha cama
Tem que passar pela sala
Quem não sabe dá bandeira
Quem sabe que sabia cala
Liga aí porta-bandeira não é mestre-sala
E não se fala mais nisso
Mais nisso não se fala
E não se fala mais nisso
Mais nisso não se fala
E não se fala mais nisso
Mais nisso não se fala
E não se fala mais nisso
Mais nisso não se fala
Tire o seu piercing do caminho
Que eu quero passar
Quero passar com a minha dor
["piercing", Zeca Baleiro]

domingo, 20 de julho de 2008

Canções de Claridade - I

De passagem,
a luz que carregas nas retinas,
deixou-me o brilho
dum sonho novo
exalado nas noites
que maturaram
este amanhecer de mim.

19 de Julho de 2008.

Março não percebe
que o amor
pede mais tempo.
Março é pisciano:
sonhador,
inquieto,
molhado...
e desatento.

terça-feira, 24 de junho de 2008

...corpo...

Estranho
é o desejo que me me move,
que me sacode enquanto durmo
e me desperta
a essas horas da madrugada
com vontade de poema.
Não me furto,
não viro ao outro lado e busco
o fio do sonho que perdi.
Desperto!
ou, se ainda durmo,
confundo papéis e lençóis
e entonteço, entre procura e encontro
de palavras,
festejo rimas,
estremeço metáforas,
anseio versos livres,
reinvento-me em ritmos...
E o corpo do poema
(mesmo se amor não é o tema)
me remete ao teu.

segunda-feira, 21 de abril de 2008

..............................................troca rápida

privar-me assim duma amizade
porque te amo... não há motivo!
se é de perder tua amizade,
mudo num instante de intenção:
não sentirei, não falarei,
nem farei nada...
já nem me movo!
prova-me, então, na intenção!
- Vai! Tira a roupa que eu nem pisco...

..............................................perdas e danos.

****
uma sombra
- deixar de amar -
me desespera
e esta necessidade
- incontornável -
de escrever, para ti
um último poema...
*****
saber viver
sem ti,
há muito
me ensinastes.
saber amar
sem ti,
há tempos
esqueci.
- que fazer
do aprendizado
e do esquecimento?
- que fazer
para dissipar a dúvida
sem te perguntar nada?

segunda-feira, 14 de abril de 2008



Nua e crua,
a Realidade sem enfeite e sem laço.
No entanto,
no calendário de minhas procuras
Março prossegue maior que Março.
Quantas bocas
completam o quadro
de tuas noites, tuas tardes e manhãs
sem amanhã?
Quantos corpos
se desnudam, se entregam e se sabem
em tuas mãos
sem amor algum?
A quantas sentenças
eu me condeno
por esta crença, esta espera e esperança
de que desistas
de um amor nenhum?

domingo, 13 de abril de 2008

Fim de noite
ainda
que nem madrugada
seja
porque esquenta a cerveja
no copo
porque chove sobre as mesas
na calçada
porque desejo é um atrevimento
e mais nada
porque o corpo só saberá do sono.

Fim de noite...


(22 de Março de 2008)
Agora, que a falta é tema,
me faltem as palavras!
Porque há faltas tão lacunares
que é nada demais pra ser dito!

>< sem embasso nem embaraço ><


sinto muito
eu sinto tanto
e mais é sentido
o que não digo
o adeus anunciado
nas curvas
da mão estendida
mas a alma não tem curva,
nem o amor, sentido.

segunda-feira, 17 de março de 2008

dna

De mamãe, um pouco de hipocondria;
de papai, estouros de impaciência...
Eu: sangue-quente em coletas bimestrais.

Móvel

para guardar as horas
em que te demoras
em não me entender

para guardar o tédio
e os frascos de remédio
do que remediado está
pela inexistência de cura...

seis gavetas de procura,
quatro portas,
prateleiras,
e a transparência do vidro
para guardar meu silêncio ausente
e aquela caneca entontecida
de generosidades a fazer
quando eu quero e sei beber a vida
para dormir descansada de mim.

para guardar teu nome
na agenda do ano que vem
e um pequeno álbum de fotografias
a revelar os dias
que não tivemos para nós.

algumas dezenas de livros.
recortes de jornais antigos,
cadernos de poemas
e uma lista de dilemas,
dúvidas e dívidas
de um amor mal-encerrado,
dobraduras de papel passado,
ingressos de cinema
feitos marca-texto,
pedras de peso de papel
e algumas canetas sem tinta.

para guardar as canções nos discos
minhas decisões e meus riscos
e um filme que eu vi
mil e uma vezes
(mas não me cansa)
blocos de notas que acendam a lembrança
e borrachas que apaguem meu próximo erro

outro armário...
para arrumar o quarto
e pensar o mundo
para respirar suave e fundo
para, em tudo organizado,
eu me guardar com cuidado
e não perder fácil as chances
de ir adiante.


(dezembro de 2007)