quinta-feira, 26 de abril de 2007

NÓ...

[arte de Galvão]





Este corpo
(dizem...)
carrega uma alma.
Infinita,
a tal alma se sabe
e se busca
em minhas buscas...


Este corpo,
com preguiça,
se ergue todas as manhãs,
sem que se eleve
a alma que há,
e se busca
fora de mim...


Este corpo
ensinou-me, de mim,
quase tudo:
pela fome,
pela sede,
pelo frio,
calor
e desejos.


Estandarte de mim,
o corpo que sinto,
carrego
e vejo, é onde,
às vezes, me sei.
E intuo
(através do espelho)
as silhuetas da alma-mistério.


No entanto,
misturados só,
confluídos só,
entrelaçados só,
dados em nós,
corpo e alma
se podem ver...
E entendem a mim.
Entendo-os, enfim: Desejo.





[Recife, Rua do Hospício, fim de tarde de 24 de Abril de 2007. "Nó", por Luciana Cavalcanti]
ILUSTRAÇÃO: arte de Galvão. Mais em: www.vidabesta.com

sexta-feira, 20 de abril de 2007

No meio do caminho, um Poeta.


Um dia, eu, tão metódica, tão caxias, fazia um telefonema no meio da tarde para justificar (mentindo, evidentemente...) a já incontornável ausência ao dia de trabalho - nem lembro o que aleguei... Devo ter falado em dor de dente, dor de cabeça, estômago... Sei lá! Só não devo ter colocado a culpa n'alguma dor de cotovelo. A ausência ao expediente nem me angustiou tanto... Esqueci, por um tempo, que as obrigações fazem jus ao nome que carregam: obrigam-nos!
Um encontro (inesperado) me prendera no meio do percurso entre a casa e o ponto de ônibus. Parei! Não segui adiante... Não conseguiria recusar-me ao convite feito pelo poeta de sentar à mesa e apreciar cerveja gelada - "pelo menos duas", ele disse! - naquela tarde...
Foi Erickson Luna que eu encontrei. E seria com Erickson Luna que eu tomaria umas boas cervejas naquela tarde quente... Cerveja tanta, que me esgotou os trocados guardados para comprar, de suas mãos, seu livro: "do moço e do bêbado". Bebemos o livro!
Erickson recitou, à mesa, alguns poemas - para o contantamento meu e de um vizinho professor, velho companheiro de copo e cruz do poeta, e para o espanto dos outros bebedores daquele boteco de esquina. Como de praxe, o poeta esbanjou seus galanteios - no jeito singularíssimo de dialogar com as mulheres...!
Rabisquei, depois, uns versos poucos para não esquecer daqueles instantes vividos, de Poesia Explícita e inesperada, num boteco qualquer. Erickson era (e será!), no entanto, maior que os versos que eu pudesse trazer para contar como foi bom ouvir e ver Erickson Luna, naquela tarde e em tantas noites recifenses. O poema ficou (e está...) incompleto, esperando mais força poética para corporificar-se inteiro...
Lembro que, entre alguma timidez e o fascínio por meu interlocutor, quis mostrar-lhe versos meus. Mostrei. Eram os originais - para a gráfica - de uma edição de nosso circulador-de-poesia "LinhasTortas". O poeta tomou os papéis com cuidado, olhou com atenção... perguntou-me quais, entre os poemas, eram meus. E disse: "é bom que vocês, jovens, façam essas coisas, fora dos esquemas que já existem!". Riu de alguma coisa. Disse: "tem coisa pra amadurecer, aqui... e amadurecendo!". Olhou-me mais de perto, puxando um pouco meu braço, e falou rindo: "não vou comentar Literatura! Fica chato numas horas...", e continuou, "Luciana, eu intuo um incêncio nessas suas palavras...". Riu mais... E não acrescentou qualquer outro comentário, antes de dobrar os papéis e enfiá-los em uma sacola. Nem ligou quando eu falei: "Erickson, esses são originais...". Decidi não ligar também! Quando, de novo, o poeta teria um LinhasTortas em suas mãos?, eu pensei. Por este motivo, uma das edições de nosso periódico foi impressa em papel ofício dobrado - porque eu, depois, me enrolei toda com a impressão de "novos originais/matrizes" para a gráfica - e boa parte das cópias eram mesmo xerox comum...
Não guardarei um exemplar de "do moço e do bêbado" autografado... Mas sei que é gostoso lembrar daquela tarde "vadiando", daquele dinheiro gasto sem o livro, daquelas conversas. E como é recifense saber que fez-se esta Cidade, Recife, também para que, por sobre seu chão, caminhasse um poeta chamado Erickson Luna!
Hoje, mais entristecida, como, certamente, estão as ruas e os botecos que o acolhiam (e conheciam tão bem), eu quero somente lembrar do porre, do dinheiro gasto inteiro em cerveja. Daquele instante, pra sempre fica/ficará, a poesia embriagora de versos e cervejas divididos com o poeta Erickson Luna!



MARIPOSA


Pra eu poder
e só
andar nas ruas
fez-se em volta uma cidade


Para se dar
mais colorido à noite
pôs-se acima os luminosos


E pra que eu
me sinta bem enfim
nesta cidade
há-se em mim um cidadão


Portanto livre
como o que é em noite
e que enche as ruas
perseguindo luzes
acordando
ainda que em sonhos
íntegro
ainda que meio-homem
plenamente meio
mariposa




Erickson Luna - 1958-2007