sábado, 31 de março de 2007

PONTUALMENTE



aprendi a espera,
mas isto não é, de modo algum,
um mérito,
tampouco acrescenta-me crédito,
aprendi a mentir, em verdade.


retiro um sorriso
esquecido nos bolsos e o gasto
sem pensar
nos encontros de amanhã...
reinvento-me nas horas.


já não tenho pressa alguma.
amanhã será (um pouco) o que eu pedi.
amanhã serei o que me fizer. eu sei
que não preciso me gastar em vão
e, então, me dou inteira em tudo...


----------------------------------------

[Recife, Várzea do Capibaribe, Março de 2007. Luciana]
Imagem: Dalí, "Persistência da memória"

segunda-feira, 26 de março de 2007

Porque trazes céus nos olhos...













alimento-me de teus olhos.
não me olhes
sem trazer estrelas

em teu firmamento claro...
eu sei o Céu em ti.
amanheço à meia-noite
porque teus olhos conduzem luz.


antecipo as chuvas,
traço rotas
e, então, suspeito que descendes
(diretamente)
da magnitude dos oceanos.


embriago-me com teus olhos.
não baixes a vista
sem que eu me tenha impregnado de ti,
sem que eu me tenha encharcado
de mar ou de mel...


navegante de céus,
descobri teus olhos como planetário,
investigo a luz em tuas retinas...
não me olhes
sem que inventemos
sete luas,
mil explosões de estrelas.





[Recife, 25 de março de 2007. poema (ainda) sem título]

segunda-feira, 19 de março de 2007

Do Anestésico


No instante
Em que se dissipa o tédio
Fulgura a chaga, ainda,
Em meio ao torpor.

Infiltra-se a lama
Na pureza inventada,
Fuga malcuidada
Que a tontura inaugurou.

Neste instante,
Tudo,
Os olhos cansados,
O torpe pensamento,
A luz da emoção,
Traduz-se em nada...

O sono não nos esquece a dor!




[sobre os remédios todos, oficiais ou nem tanto, para levar a Vida - Recife, 2002]
Imagem: o Quixote de Portinari.

Vida. Vida. Vida...


segunda-feira, 12 de março de 2007

.andar com

Fé


Não conheço a Cabala.
Tampouco li o Corão.
Não contei quantas forças
e fraquezas trouxe Eva,
do homem, na costela de Adão.

De um coágulo de sangue,
preso a material cirúrgico
entre as minhas costelas,
Deus fez o milagre
de eu me descobrir barro...

Não o temor da Morte,
mas o pavor dos dias, todos,
em que não tenho vivido...
Eu, que não li o Mahabaratha
e desconheço a sabedoria dos Vedas!

Moisés prescreveu não tomar
O Santo nome de Iawhé em vão...
Com amor dizer Iawhé, Oxalá, Oxum.
E dizer Alá, Jesus, Brahma, Krishna,
no respeito de um dizer irmanado.

Não serei culpada, se não
me atingir alguma pedra. E, então,
serei livre por não ser profeta...
E não ofenderei a Deus,
de quem desconheço o Mistério.

Mas procurarei as Suas mãos, onde,
talvez, permanece a espátula de artesão
e ainda os calos do labor. Ou um corte,
quem sabe origem do coágulo...
e os restos do barro primeiro dos homens.


-------------------------------------------
[Recife, 2001 - Luciana]