quinta-feira, 15 de fevereiro de 2007

Definição de "querer" - parte I



Fernando Pessoa disse - e eu acredito! - que ridículas são as pessoas que nunca escreveram uma carta de amor...
Carta-aberta, o Amor que a gente esconde, se publica! O Amor que da gente se esconde, comunica a sua ansiedade de chegar. E eu já não sei esconder o amor-que-quero porque uma coisa é ser louca, outra, é ser ridícula...







Entendi te querer
somente quando
percebi que te quis
em euforia de festa,
cantando alto sem seresta,
dançando na rua sem carnavais...

E somente
quando considerei a tua felicidade
em autonomia, o teu sono (sozinho)
em tua cama e o teu riso
sem as minhas brincadeiras ...

Entendi, então,
que eu te queria de qualquer maneira:
queria te ver sorrindo
(ou não te ver e saber que sorrias...),
queria te escutar resmungando,
queria te escutar ressonando,
queria acordar com o teu virar na cama...

Queria te ver em paz,
queria te ter em casa,
guardado para as noites frias...
Queria, ainda, te deixar sozinho
e jurar para mim mesma, no espelho,
que não pediria nunca para voltares
(até porque bem saberias o caminho...).

E eu te queria de cabeça-quente,
ou frio, quase gelado,
ameaçando acabar com tudo
e eu a te demover da (in)decisão com choro...

Eu te quereria também com pressa
e te quereria com calma,
porque te quero com alma
como te quero na carne
com as mil partes de mim
que pulsam
à recitação de um poema,
que estremecem
ante a visão de tua boca
e com a parte de mim
que te escolhe no jogo,
que te chama à dança,
que se queixa, mas não cansa
de te buscar...

E buscar, de ti, a voz.
Buscar, de ti, a língua.
Buscar, de ti, os dentes
e a mordida
e morder, em ti, a Vida.
Eu, que te busco como à comida
para não morrer de fome,
para não morrer de raiva,
nem de espera
ou frio...
Eu, que não guardo na boca
o teu nome
para encantar com tua luz
as noites sem graça,
para justificar incomposturas
no meio da praça
e para ousar dizer de ti
o que nem sabes...

Tudo, porque eu te quero assim:
ouvindo-me atento,
e espantado,
e sorrindo,
e sabendo...
Eu te quero pela insistência cega do querer!
Eu te quero cuidado.
Eu te quero remanso.
Eu te quero guerra,
alcançando todos os territórios de mim,
conquistando,
explodindo,
sem pausas, sem tréguas.

Eu te quero chão,
minha terra e leito,
lavoura e rio...
Quero-te ali, onde eu me deito.
Quero-te em chão macio
ou em terra molhada,
ceifarmos quando ainda é madrugada...
Quero este querer fértil...

Eu te quero sem mudança de endereço,
sem virar para o avesso,
sem virada de mesa...
Eu te quero sem mudança de hábito,
sem contrato
e sem consórcio...
Quero-te sem mudar nada de ti
ou de mim.
Eu te quero em tua casa
e te quero na minha.
Quero... Quero...
Quando estou contigo
ou sozinha,
quando me falta o que fazer
ou quando me foge o tempo.

Quero-te, portanto, para me envolver
em lugar da roupa,
para despir-te sem usar as mãos,
para dizer-te "amor" sem a boca,
para minha boca trazer-te mais que palavras.

Eu te quero em corpo
e quero alma - dilatada e pura -
para querer-te bem.
Eu te quero, enfim, poema de minha lavra,
coisa que me veio de dentro...

Eu te quero, profundamente,
no centro,
insabido,
desconhecido,
de mim.



[Poema sem título. Recife, Várzea do Capibaribe, 14 de Fevereiro de 2007]

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2007

De "uma velha página"...












“Como isso irá terminar?”, perguntamos nós todos. “Quanto tempo suportaremos esta carga e sofrimento? O palácio imperial, com engodos, atraiu os nômades, mas não sabe entretanto de que modo expulsá-los. O portão permanece fechado; os guardas, que outrora sempre marchavam festivamente de um lado para outro, postaram-se atrás de janelas gradeadas. A salvação da pátria vai depender de nós, os artesãos e comerciantes,
mas somos incompetentes para levar a cabo essa tarefa; e também nunca nos vangloriamos de poder realizá-la. Há um mal-entendido e por causa disso vamos à ruína.”
Trecho final de um conto de Franz Kafka...

sábado, 10 de fevereiro de 2007

"a saudade é tão grande... que até me embaraço!"




"Quando eu era assim
Bem menor
Não tive a fim, sei lá
De pensar em nós
Agora eu sei e entendo melhor
Vidente eu li no céu
Vai por mim, somos corpo e alma
Meu irmão, meu par
Quando a solidão
Se enredar em ti
E o coração dançar
Conta comigo
Eu quero estar, viu
A teu lado
E haja o que houver
Junto a ti, feito corpo e alma
Meu irmão, meu par
Sei que a vida vai aprontar
E o que vier, azar
A dois é fácil segurar
Se Deus deixar, viu
Meu amigo
Vou sempre estar aqui
Junto a ti, feito corpo e alma
Meu irmão, meu par"




["corpo e alma", Kleiton e Kleidir]