quarta-feira, 31 de janeiro de 2007

PILEQUE




Por meus olhos

o Capibaribe me bebeu.

E, embriagado, o Rio

percorreu toda a cidade,

confundindo aos poetas,

até que no mar,

com tanta água salgada,

me esqueceu.






["pileque", poema-anfíbio...precisará todo recifense disto? Por Manuel, João e Joaquim... E por Carlos, acredito: eu preciso!
Caminhando sobre uma ponte, Madalena de Dezembro]

utilidade decrescente (?)


Uso e desuso.
O Amor sem Lei
nem rei.
O Amor por hábito
e obrigação.
Multiplicar/dividir...
(sub)trair x somar.
O Amor?
De Lei,
uso e desuso.



["axioma", poema-cansaço. E era quase-carnaval em 2005]
Imagem: tela de Modigliani

A(s) queda(s)


Ainda ontem
um anjo
bêbado quase
derrubou-me
escada abaixo.
Entretanto,
há firmeza
no descomunal
desequilíbrio
que preparou-me
apenas
para quedas
premeditadas.
["tontura", um poema de escada. Ali, sentada nos degraus do Colégio de Aplicação/UFPE, em um outubro...]
Imagem: da arte de "De Chirico"...

Café com poesia...


Café forte.
Sonhos, nem tanto...
Incapazes de andar com as pernas
próprias,
quedam doentes.
Estômago instável, portanto,
pelo que me dói no que não fiz,
pelo que me custa a digerir,
pela fome submersa
na saciedade equilibrada...
E há tanta cafeína por dissolver
em mágoa
e sem nenhum açúcar.



[o "poema-expresso", luciana. Recife, data solta na lembrança...]
Imagem: fotografia de Bernardo Coutinho (b.)... Com poesia e tudo!

quarta-feira, 24 de janeiro de 2007

nas coisas, o amor...


As coisas que tu me dás,
tuas,
não te desfazes delas,
nem partilhamos o antes compartido
como despojos de guerra,
pontos de final...
As coisas que me dás,
tuas,
permanecem tão presentes
e possíveis
como nas estantes de teu quarto,
discos e livros,
como no traço de tua boca
este riso...
Porque as coisas que nos damos,
nossas,
antes, como agora,
nos dizem nós,
apertam nós,
e nunca partilharemos despojos
de nada...
Somos.
Seremos.


["coisa feita"; Recife, Rua do Hospício, 09 de Janeiro de 2007]

Pra o meu Senhor do Bonfim nem se zangar...!


Eu sou a chuva que lança a areia no Saara
Sobre os automóveis de Roma
Eu sou a sereia que dança, a destemida Iara
Água e folha da Amazônia
Eu sou a sombra da voz da matriarca da Roma Negra
Você não me pega, você nem chega a me ver
Meu som te cega, careta, quem é você?
Que não sentiu o suingue de Henri Salvador
Que não seguiu o Olodum balançando o Pelô
E que não riu com a risada de Andy Warhol
Que não, que não, e nem disse que não
Eu sou o preto norte-americano forte
com um brinco deouro na orelha
Eu sou a flor da primeira música,
A mais velha e mas nova espada e seu corte
Eu sou o cheiro dos livros desesperados, sou Gitá gogoya
Seu olho me olha, mas não me pode alcançar
Não tenho escolha, careta, vou descartar
Quem não rezou a novena de Dona Canô
Quem não seguiu o mendigo Joãozinho Beija-Flor
Quem não amou a elegância sutil de Bobô
Quem não é recôncavo e nem pode ser reconvexo.



["reconvexo", Caetano Veloso]


A cabeça quente se rende ao batuque, ao ritmo, à raiz.
Bethânia cantando os versos de seu mano Caetano... E eu pressinto que com fé, ritmo, paixão, dor, pulso, luz e vontade, se poderá re-contar páginas dessa história boa que é a Vida.
Caminho por fazer-se. Caminho ao fazer-me...


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IMAGEM: A. Gondin
Texto: da canção de Caetano Veloso

domingo, 21 de janeiro de 2007

Viver-viver... e mais viver!!!


Quem pagará o enterro e as flores
Se eu me morrer de amores?
Quem, dentre amigos, tão amigo
Para estar no caixão comigo?
Quem, em meio ao funeral
Dirá de mim: – Nunca fez mal...
Quem, bêbedo, chorará em voz alta
De não me ter trazido nada?
Quem virá despetalar pétalas
No meu túmulo de poeta?
Quem jogará timidamente
Na terra um grão de semente?
Quem elevará o olhar covarde
Até a estrela da tarde?
Quem me dirá palavras mágicas
Capazes de empalidecer o mármore?
Quem, oculta em véus escuros
Se crucificará nos muros?
Quem, macerada de desgosto
Sorrirá: – Rei morto, rei posto...
Quantas, debruçadas sobre o báratro
Sentirão as dores do parto?
Qual a que, branca de receio
Tocará o botão do seio?
Quem, louca, se jogará de bruços
A soluçar tantos soluços
Que há de despertar receios?
Quantos, os maxilares contraídos
O sangue a pulsar nas cicatrizes
Dirão: – Foi um doido amigo...
Quem, criança, olhando a terra
Ao ver movimentar-se um verme
Observará um ar de critério?
Quem, em circunstância oficial
Há de propor meu pedestal?
Quais os que, vindos da montanha
Terão circunspecção tamanha
Que eu hei de rir branco de cal?
Qual a que, o rosto sulcado de vento
Lançará um punhado de sal
Na minha cova de cimento?
Quem cantará canções de amigo
No dia do meu funeral?
Qual a que não estará presente
Por motivo circunstancial?
Quem cravará no seio duro
Uma lâmina enferrujada?
Quem, em seu verbo inconsútil
Há de orar: – Deus o tenha em sua guarda.
Qual o amigo que a sós consigo
Pensará: – Não há de ser nada...
Quem será a estranha figura
A um tronco de árvore encostada
Com um olhar frio e um ar de dúvida?
Quem se abraçará comigo
Que terá de ser arrancada?
Quem vai pagar o enterro e as flores
Se eu me morrer de amores?


["a hora íntima", do poetinha, Vinícius...]


"Quem me dera viver pra ver... e brincar outros carnavais!"


A vida, um dia estanca. Não gosto de fingir que não será assim... Por isso, abraço a vida com ânsia, paixão e zelo!
Por isso, esse jeito de querer fazer, das horas, Poesia.
Foto: Por Manuela Oliveira, em Itamaracá, fim-sempre-começo de festa, Sobrecú. Verão de 2007, quase-inteiro Carnaval.
Texto: do poema de Vinícius de Moraes.

quinta-feira, 18 de janeiro de 2007

Aprendo lições do Fogo...



Sou sua noite,
sou seu quarto
Se você quiser dormir
Eu me despeço
Eu em pedaços
Como um silêncio ao contrário
Enquanto espero
Escrevo uns versos
Depois rasgo

Sou seu fardo,
sou seu bardo
Se você quiser ouvir
O seu eunuco, o seu soprano,
Um seu arauto
Eu sou o sol
da sua noite em claro,
Um rádio...
Sou pelo avesso, sua pele,
O seu casaco,
Se você vai sair
O seu asfalto
Se você vai sair
Sou a chuva
Sobre o seu cabelo,
Pelo seu itinerário
Sou eu o seu paradeiro



["uns versos", adriana calcanhoto]


Foto: Por Manuela Oliveira, Manu. Aceso, o fogo da amizade, o fogo da Vida: paixão, paixões! Na trama dos dias-noites, fogo, esta luz criança...! Itamaracá, verão de 2007.

quarta-feira, 17 de janeiro de 2007

Do Carpinejar... Do amor e da amizade, então, de mim.

Enquanto eu posto este texto, toca o disco da Zélia Duncan: "eu me transformo em outras"... Certamente. Cada mulher se transforma em outras... Como canta Maria Rita, Pagú (pagando pra ver!): freira e puta. Mas, não... Isto já não me assusta... Decidi que há poesia (minha, porque abraço...) em outras coisas que não meus versos e, por isso, já não trago aqui apenas poemas - e poemas meus! Na insônia de ontem, eu li o Fabrício em seu Blog. Leitura boa. Leitura com sede, e fome, e cio... Eu quis! E, calmamente, depois, encontrei um texto que me fala de tantos amores... fica difícil acreditar que não fui eu! Apresento-o... "Escondo o Amor na Amizade", de Fabrício Carpinejar...


Eu respirava pela boca. A boca obrigada a falar e respirar ao mesmo tempo. O nariz preguiçoso, mais alto e forte, mandava nela. E ela obedecia. Não descansava os lábios. Entreabertos. Cumprindo um turno pela voz e o outro pelo sopro. Os dentes como lápis apontados pelo vento. Os lábios sem cola, sem comissura, sem liga. Os lábios levantando-se ao beijo todo sempre. No meio da escada. Meus lábios não dormiram sequer uma vez em minha vida. Do mesmo modo que trocava a boca pelo nariz, confundia a amizade com o amor. Não amei nenhuma mulher pela atração simples e direta. Pela beleza fulminante. Pela sedução lacônica e apressada. Não amei uma mulher à primeira vista. Meus amores foram a prazo, bem parcelados. Com o carnê cheio de folhinhas. Conversados longamente para encontrar a quietude. Observados, desesperados, lentos. Segurar inicialmente os braços, depois as mãos, bem depois o rosto. Amei pela convivência, pelas afinidades, pelas discussões, pelos cantos da chuva, pelo sol pintado do meio-fio. Amei na continuidade, no alinhamento do riso, nas brincadeiras involuntárias. Amei ao expor confidências ¿ as confidências já eram provas de que amava. Desabafei muito antes de amar, pedi muito ajuda antes de amar, fui incompreendido muito antes de amar. Amei durante a semana mais do que nos finais de semana. Amigo leal e pontual de uma menina, amigo inseparável, não tinha jeito: queria namorá-la. Não conseguia parar o corpo. O amor aparecia como compreensão inteira, dedicada. Não desejava uma mulher que não me entendesse, desejava quando ela me entendia. Percebia o amor como um segredo desde a escola. Um amigo secreto. Ele gosta de alguém e ninguém sabe. Ela gosta de alguém e ninguém sabe. Guardava-se uma paixão com coração e iniciais, sorrateiramente, na última página do caderno de matemática. Não era assim? Escondia o amor dentro da amizade. Não havia melhor esconderijo. A amizade me levava ao amor. Mas o amor, logo que encerrava, renunciava a amizade do começo. Não dava para voltar à amizade quando me declarava. Para continuar, a amizade não pode ter a consciência do amor. A amizade termina se o amor surge, a amizade termina igualmente se o amor acaba. Não mudei com o tempo. Amo pela amizade, respiro pela boca, converso pela respiração.

de Fabrício Carpinejar

segunda-feira, 15 de janeiro de 2007

Falando por mim, outra música.

Não quero sugar todo seu leite
Nem quero você enfeite do meu ser
Apenas te peço que respeite
O meu louco querer
Não importa com quem você se deite
Que você se deleite seja com quem for
Apenas te peço que aceite
O meu estranho amor

Ah! Mainha deixa o ciúme chegar
Deixa o ciúme passar e sigamos juntos
Ah! Neguinha deixa eu gostar de você
Prá lá do meu coração não me diga
Nunca não

Teu corpo combina com meu jeito
Nós dois fomos feitos muito pra nós dois
Não valem dramáticos efeitos
Mas o que está depois
Não vamos fuçar nossos defeitos
Cravar sobre o peito as unhas do rancor
Lutemos mas só pelo direito
Ao nosso estranho amor


("Nosso estranho amor", Caetano)

quinta-feira, 11 de janeiro de 2007

Auto-retrato (?)

Crédito no Banco
e vergonha na cara
são, nesta ordem,
as duas coisas que menos eu tenho...
O resto, de tudo,
eu invento:
pego arrêgo,
furto,
tomo de empréstimo,
finjo bem,
faço a pala...
Minhas mentiras, às vezes, me dizem.
No espelho, nenhuma delas se cala.


Luciana Cavalcanti - Janeiro de 2007.

O que faz a poesia?

Se eu fosse um padre, eu, nos meus sermões,
não falaria em Deus nem no Pecado
– muito menos no Anjo Rebelado
e os encantos das suas seduções,

não citaria santos e profetas:
nada das suas celestiais promessas
ou das suas terríveis maldições...
Se eu fosse um padre eu citaria os poetas,

Rezaria seus versos, os mais belos,
desses que desde a infância me embalaram
e quem me dera que alguns fossem meus!
Porque a poesia purifica a alma
...e um belo poema – ainda que de Deus se aparte –
um belo poema sempre leva a Deus!


(Mario Quintana)

terça-feira, 2 de janeiro de 2007

Desejos de Janeiro...


Saiba um amor que te sinta,
mergulhe por sede da pele,
delire em canção que não minta...
E feche os olhos,
e abra o peito,
encontre o mar.

Encontre o caminho de casa,
da casa invisível,
onde morarão teus sonhos,
onde moras já (sem saber).
Queira o amor,
dilate o querer,
dilate os dias,
comendo as horas sem pressa,
como fruta boaem dia de mar.

Saiba saber do desejo,
não se esquive (nunca!) ao bom do beijo
- nem se furte ao beijo roubado!
Sinta o amor do cuidado,
saiba das harmonias do silêncio
e cante. E dance. E seja...

Feche bem os olhos, se veja.
Ajuda, no escuro, ao parto
da Luz. Ilumina o olho cego das ruas,
desengaveta os poemas,
mostra a cara,
assume o sonho,
desnuda a alma...

E o mais certo de ti,
desnuda também, com calma,
porque em cada pele dorme
um bocado atrevido de luz.

Guarda a lua que vês,
três pedaços de crepúsculo
e dois de aurora,
para trazer nos olhos
à emergência do amor amado.

Não peça dos dias,
desperta em cada um
a vontade mais doida e boa
de te fazer sempre mais
feliz, feliz...

E seja
feliz com o que deseja
e desejante do que faz riso.
Criterioso sem ciso,
cuidadoso, sem medo...
Seja o mistério e seja claro,
seja aquele instante raro
em que se sabe beber o Eterno
nas bocas.

Seja uma verdade,
não última, nem primeira,
seja qualquer verdade verdadeira
de um amor que se quer para querer,
de um momento
que não te aceita sozinho,
de um viajante,
embriagado de caminho,
que deseja parar e olhar o sol.

Veja a estrela que arde,
aprenda a ouvi-las,
aprenda a dividir com as estrelas
a força
de multiplicar teus desejos,
de trazer os desejos pela mão,
de trazer o desejo nas mãos,
e estender brilho,
transbordante,
dos olhos ao chão de casa.

Saiba, de cór,
saiba demais, de ouvido,
a canção que te traz sentido
a um novo amor...
Saiba por um cheiro,
imaginar cores e formas.
E saiba inventar melhor depois.
Ou saiba nada. Esqueça um pouco...
E – de sexto sentido e outros cinco -
intua, de intuição descarada,
boa vida
para dois.

..............................................

...o primeiro poema do Ano Chegado. Peito aberto e ampliado... Vida sorrindo sorriso bonito e bom.
Escrita aberta...


Entretanto,
entre nós,
antevejo
a visão turva
do nada aceso
após a curva,
da mão sem luva,
sem pingos, os “is”.
Romântico e triste,
outro filme – até parece
que já o vi...

Entretanto,
acredito,
no que, míope,
vi bonito: o que podia ser...
Acerto de marchas,
toque de clarins,
toque do destino,
um Futuro-menino
brincando de pega-pega.
E esta sem-razão,
cabra-cega,
nos cegando os nós,
fazendo o eu-tu, nós,
amarrados no bom da Vida.

O visto e o re-visto,
os sentidos e o pressentido,
quis saber,
entrevi...
E me achei,
comendo as palavras,
os gestos,
a ausência
e a vontade,
entrelinhas, entreatos,
entre eu e você.

E entre o passado e futuros,
entre o pop e a Bossa,
entre estação e viagem,
entre o “curtir” e a fossa,
entre bloqueios e passagem,
entre o medo e o salto,
entre o carnaval e as cinzas,
a penitência e o riso,
o corpo e a alma,
minha mão e o telefone,
ansiedade e a calma,
meus versos e teu nome,
entre as vias e o fato,
entre os “nãos” e um “sim”,
possibilidade e ato,
permanências e fim...
Entre tudo, entre as ruas,
em que me encontro,
em que te encontro
- e quero encontrar!;
“entre” e “em” tudo
esteja escrito:
entre um pouco,
sinta-se em casa,
sinta-se em mim
e, entretanto,
sinta-se solto
entre as vidas
e todo estradar...


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Luciana Cavalcanti. Recife, Várzea do Capibaribe, 29 de dezembro de 2006; 17 horas.