sexta-feira, 20 de abril de 2007

No meio do caminho, um Poeta.


Um dia, eu, tão metódica, tão caxias, fazia um telefonema no meio da tarde para justificar (mentindo, evidentemente...) a já incontornável ausência ao dia de trabalho - nem lembro o que aleguei... Devo ter falado em dor de dente, dor de cabeça, estômago... Sei lá! Só não devo ter colocado a culpa n'alguma dor de cotovelo. A ausência ao expediente nem me angustiou tanto... Esqueci, por um tempo, que as obrigações fazem jus ao nome que carregam: obrigam-nos!
Um encontro (inesperado) me prendera no meio do percurso entre a casa e o ponto de ônibus. Parei! Não segui adiante... Não conseguiria recusar-me ao convite feito pelo poeta de sentar à mesa e apreciar cerveja gelada - "pelo menos duas", ele disse! - naquela tarde...
Foi Erickson Luna que eu encontrei. E seria com Erickson Luna que eu tomaria umas boas cervejas naquela tarde quente... Cerveja tanta, que me esgotou os trocados guardados para comprar, de suas mãos, seu livro: "do moço e do bêbado". Bebemos o livro!
Erickson recitou, à mesa, alguns poemas - para o contantamento meu e de um vizinho professor, velho companheiro de copo e cruz do poeta, e para o espanto dos outros bebedores daquele boteco de esquina. Como de praxe, o poeta esbanjou seus galanteios - no jeito singularíssimo de dialogar com as mulheres...!
Rabisquei, depois, uns versos poucos para não esquecer daqueles instantes vividos, de Poesia Explícita e inesperada, num boteco qualquer. Erickson era (e será!), no entanto, maior que os versos que eu pudesse trazer para contar como foi bom ouvir e ver Erickson Luna, naquela tarde e em tantas noites recifenses. O poema ficou (e está...) incompleto, esperando mais força poética para corporificar-se inteiro...
Lembro que, entre alguma timidez e o fascínio por meu interlocutor, quis mostrar-lhe versos meus. Mostrei. Eram os originais - para a gráfica - de uma edição de nosso circulador-de-poesia "LinhasTortas". O poeta tomou os papéis com cuidado, olhou com atenção... perguntou-me quais, entre os poemas, eram meus. E disse: "é bom que vocês, jovens, façam essas coisas, fora dos esquemas que já existem!". Riu de alguma coisa. Disse: "tem coisa pra amadurecer, aqui... e amadurecendo!". Olhou-me mais de perto, puxando um pouco meu braço, e falou rindo: "não vou comentar Literatura! Fica chato numas horas...", e continuou, "Luciana, eu intuo um incêncio nessas suas palavras...". Riu mais... E não acrescentou qualquer outro comentário, antes de dobrar os papéis e enfiá-los em uma sacola. Nem ligou quando eu falei: "Erickson, esses são originais...". Decidi não ligar também! Quando, de novo, o poeta teria um LinhasTortas em suas mãos?, eu pensei. Por este motivo, uma das edições de nosso periódico foi impressa em papel ofício dobrado - porque eu, depois, me enrolei toda com a impressão de "novos originais/matrizes" para a gráfica - e boa parte das cópias eram mesmo xerox comum...
Não guardarei um exemplar de "do moço e do bêbado" autografado... Mas sei que é gostoso lembrar daquela tarde "vadiando", daquele dinheiro gasto sem o livro, daquelas conversas. E como é recifense saber que fez-se esta Cidade, Recife, também para que, por sobre seu chão, caminhasse um poeta chamado Erickson Luna!
Hoje, mais entristecida, como, certamente, estão as ruas e os botecos que o acolhiam (e conheciam tão bem), eu quero somente lembrar do porre, do dinheiro gasto inteiro em cerveja. Daquele instante, pra sempre fica/ficará, a poesia embriagora de versos e cervejas divididos com o poeta Erickson Luna!



MARIPOSA


Pra eu poder
e só
andar nas ruas
fez-se em volta uma cidade


Para se dar
mais colorido à noite
pôs-se acima os luminosos


E pra que eu
me sinta bem enfim
nesta cidade
há-se em mim um cidadão


Portanto livre
como o que é em noite
e que enche as ruas
perseguindo luzes
acordando
ainda que em sonhos
íntegro
ainda que meio-homem
plenamente meio
mariposa




Erickson Luna - 1958-2007

2 comentários:

juca disse...

O Assinalado (Cruz e Sousa)

à Erickson Luna

Tu és o louco da imortal loucura,
O louco da loucura mais suprema.
A Terra é sempre a tua negra algema,
Prende-te nela a extrema Desventura.

Mas essa mesma algema de amargura,
Mas essa mesma Desventura extrema
Faz que tu'alma suplicando gema
E rebente em estrelas de ternura.

Tu és o Poeta, o grande Assinalado
Que povoas o mundo despovoado,
De belezas etrenas, pouco a pouco...

Na Natureza prodigiosa e rica
Toda a audácia dos nervos justifica
Os teus espasmos imortais de louco!

juca disse...

De alma em alma

Tu andas de alma em alma errando, errando,
como de santuário em santuário.
És o secreto e místico templário
As almas, em silêncio, contemplando.

Não sei que de harpas há em ti vibrando,
que sons de peregrino estradivário
Que lembras reverências de sacrário
E de vozes celestes murmurando.

Mas sei que de alma em alma andas perdido
Atrás de um belo mundo indefinido
De silêncio, de Amor, de Maravilha.

Vai! Sonhador das nobres reverências!
A alma da Fé tem dessas florescências,
Mesmo da Morte ressuscita e brilha!