quarta-feira, 17 de janeiro de 2007

Do Carpinejar... Do amor e da amizade, então, de mim.

Enquanto eu posto este texto, toca o disco da Zélia Duncan: "eu me transformo em outras"... Certamente. Cada mulher se transforma em outras... Como canta Maria Rita, Pagú (pagando pra ver!): freira e puta. Mas, não... Isto já não me assusta... Decidi que há poesia (minha, porque abraço...) em outras coisas que não meus versos e, por isso, já não trago aqui apenas poemas - e poemas meus! Na insônia de ontem, eu li o Fabrício em seu Blog. Leitura boa. Leitura com sede, e fome, e cio... Eu quis! E, calmamente, depois, encontrei um texto que me fala de tantos amores... fica difícil acreditar que não fui eu! Apresento-o... "Escondo o Amor na Amizade", de Fabrício Carpinejar...


Eu respirava pela boca. A boca obrigada a falar e respirar ao mesmo tempo. O nariz preguiçoso, mais alto e forte, mandava nela. E ela obedecia. Não descansava os lábios. Entreabertos. Cumprindo um turno pela voz e o outro pelo sopro. Os dentes como lápis apontados pelo vento. Os lábios sem cola, sem comissura, sem liga. Os lábios levantando-se ao beijo todo sempre. No meio da escada. Meus lábios não dormiram sequer uma vez em minha vida. Do mesmo modo que trocava a boca pelo nariz, confundia a amizade com o amor. Não amei nenhuma mulher pela atração simples e direta. Pela beleza fulminante. Pela sedução lacônica e apressada. Não amei uma mulher à primeira vista. Meus amores foram a prazo, bem parcelados. Com o carnê cheio de folhinhas. Conversados longamente para encontrar a quietude. Observados, desesperados, lentos. Segurar inicialmente os braços, depois as mãos, bem depois o rosto. Amei pela convivência, pelas afinidades, pelas discussões, pelos cantos da chuva, pelo sol pintado do meio-fio. Amei na continuidade, no alinhamento do riso, nas brincadeiras involuntárias. Amei ao expor confidências ¿ as confidências já eram provas de que amava. Desabafei muito antes de amar, pedi muito ajuda antes de amar, fui incompreendido muito antes de amar. Amei durante a semana mais do que nos finais de semana. Amigo leal e pontual de uma menina, amigo inseparável, não tinha jeito: queria namorá-la. Não conseguia parar o corpo. O amor aparecia como compreensão inteira, dedicada. Não desejava uma mulher que não me entendesse, desejava quando ela me entendia. Percebia o amor como um segredo desde a escola. Um amigo secreto. Ele gosta de alguém e ninguém sabe. Ela gosta de alguém e ninguém sabe. Guardava-se uma paixão com coração e iniciais, sorrateiramente, na última página do caderno de matemática. Não era assim? Escondia o amor dentro da amizade. Não havia melhor esconderijo. A amizade me levava ao amor. Mas o amor, logo que encerrava, renunciava a amizade do começo. Não dava para voltar à amizade quando me declarava. Para continuar, a amizade não pode ter a consciência do amor. A amizade termina se o amor surge, a amizade termina igualmente se o amor acaba. Não mudei com o tempo. Amo pela amizade, respiro pela boca, converso pela respiração.

de Fabrício Carpinejar

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