domingo, 2 de dezembro de 2007


A cor das paredes,

o lugar (preciso) de cada coisa

e (re)colorir com quadros e móveis...

Preparo um poema

como quem arruma o quarto.

Com ansiedade, o rearrumo,

cada dia,

e desejo vê-lo feito

como quem aguarda o parto.



Preparo um poema

como quem planta flores,

estuda-lhes os aromas,

espalha-as em cada canto,

transplantando paraísos aos caminhos.



Não calcularia um poema,

com palavras de fino trato,

com métrica e comedida,

ciosa por não mostrar-me...



Apuro sons e imagens,

perco-me em seus alcances

e não decifro, por vezes,

as mensagens que trazem...



No entanto, preparo um poema.



E é um preparar de quem rasga

a terra e deita sementes...

Cuidado de verde delicado,

quando as terras e as mãos se desejam

e o suor fecunda o chão...

pois eu preparo um poema

como, em alquimia, se prepara o pão.




["trabalho", poema de mão-à-obra... achado-perdido num caderno bem antigo]

terça-feira, 18 de setembro de 2007

...no mote de Drummond (?)

Ah, e como há de ficar
chato ser Pós-moderno,
desde agora, externo
um peito que não me antecede
nem me suscede...

Peito devir. Move-se. E não fica.

Na contratendência da moda
- ah, como incomoda! -,
levei a sério um "quê" retrô,
sem romantismo,
sem materialismo,
com pimenta
e com vontade
provar sabores,
ousar saberes...

E se, por descuido, um caos
de mim espalhado na rua
re-vela-me pós-moderna,
não me furtarei...
-"Não furtarás!", disse Deus
a Moisés. Não me furto!
Estarei presente.
Sonharei futuros.
Lembrarei
(às vezes, pra que se esqueça!)
o passado.

Mas Eterno é longo e grande.
Fico em movimento...
Aberta ao mundo
E terna...

sábado, 11 de agosto de 2007

Máscaras...

Perder-te e, no entanto,
encontrar-me nas mentiras
que já não me minto
de, tão fácil,
entregar-me
ao amor que não sinto.



(Fevereiro de 2007... quase-carnaval. Recife, Várzea do Capibaribe)

De Passagem

Passa
e deixa, colada às retinas
dos meus olhos,
a certeza de querer
alinhar-me à conduta
dos teus passos.


Olha
e deixa dito, ao suor
da minha pele,
da certeza de querer
misturar-se ao cheiro
de teu suor.


Vai
e não me deixa certa
de meu amor
alinhado, misturado,
à certeza de um querer
que viria de ti...



[Dezembro de 2006]
Depoimento



A fatura
do cartão de crédito testemunha:
a evidência do amor
que me assalta,
levando garrafas de vinho tinto,
na tarde que passa
roendo as unhas.




... Luciana Cavalcanti. Recife, Várzea do Capibaribe: s/d.

domingo, 27 de maio de 2007

Long play


Canções silenciam em discos.
Imóvel,
a vitrola, se faz
espelho implacável.
Ali, me vejo:
em poemas aprisionados,
canções que já não canto (agora)
trazendo versos na melodia
que preenche, ainda,
os espaços vazios.


Há canções que já não me querem
ver com este rosto de hoje,
descontente de mim.
Evitam minha rua. Já não freqüentam
os mesmos bares...
Possível até nem trocarmos um “bom dia”
numa manhã dessas,
em encontro casual.


Talvez, o silêncio me roube versos...
Ou, astutamente, tire proveito
da vitrola vazia,
do ouvir indiferente
de alaridos na rua.


Devolverias, por acaso, a harmonia e o tom
das canções bem guardadas nos discos
que me faziam a guia?


Talvez, o silêncio me roube alma...
Ou, grosseiramente, me impeça
(de)cantar as canções silenciadas,
re-cantar as canções caladas na boca,
(hoje) estéril e endoidecida.


Nem dissonância, nem silêncio:
cadenciadas dores,
em melodia crescente que,
ao se fazer ouvir,
me arranha os discos!



......................................................................................
Um poema bem "breguinha" para retratar a relação doída do ouvido-coração com os discos, vez por outra...

...onde a caixa?


tenho algumas horas
novíssimas
guardadas num recipiente
que perdi
durante a última
arrumação do quarto.
agora,
que aguardo,
preciso delas com seu cheiro
de tempo-esquecido,
de naftalina,
de armário...
agora,
que aguardo,
preciso de horas extras
para perder
(sem economias)
quando o Amor voltar.
[28 de Março de 2007]
IMAGEM: arte de Roberto Magalhães.

domingo, 6 de maio de 2007

Por onde vão os pensamentos quando...



MIRAGEM




A cabeça aberta...
Os olhos meio-mortos
E quase-vermelhos.
Eu quis chorar,
Não quis espelhos,
Por isso, te chamei.
Queria saudar teu rosto,
Queria sentir ainda o gosto
Daquilo que amei.
[novembro de 2002]
Imagem: Arte de Galvão >> http://www.vidabesta.com

quinta-feira, 26 de abril de 2007

NÓ...

[arte de Galvão]





Este corpo
(dizem...)
carrega uma alma.
Infinita,
a tal alma se sabe
e se busca
em minhas buscas...


Este corpo,
com preguiça,
se ergue todas as manhãs,
sem que se eleve
a alma que há,
e se busca
fora de mim...


Este corpo
ensinou-me, de mim,
quase tudo:
pela fome,
pela sede,
pelo frio,
calor
e desejos.


Estandarte de mim,
o corpo que sinto,
carrego
e vejo, é onde,
às vezes, me sei.
E intuo
(através do espelho)
as silhuetas da alma-mistério.


No entanto,
misturados só,
confluídos só,
entrelaçados só,
dados em nós,
corpo e alma
se podem ver...
E entendem a mim.
Entendo-os, enfim: Desejo.





[Recife, Rua do Hospício, fim de tarde de 24 de Abril de 2007. "Nó", por Luciana Cavalcanti]
ILUSTRAÇÃO: arte de Galvão. Mais em: www.vidabesta.com

sexta-feira, 20 de abril de 2007

No meio do caminho, um Poeta.


Um dia, eu, tão metódica, tão caxias, fazia um telefonema no meio da tarde para justificar (mentindo, evidentemente...) a já incontornável ausência ao dia de trabalho - nem lembro o que aleguei... Devo ter falado em dor de dente, dor de cabeça, estômago... Sei lá! Só não devo ter colocado a culpa n'alguma dor de cotovelo. A ausência ao expediente nem me angustiou tanto... Esqueci, por um tempo, que as obrigações fazem jus ao nome que carregam: obrigam-nos!
Um encontro (inesperado) me prendera no meio do percurso entre a casa e o ponto de ônibus. Parei! Não segui adiante... Não conseguiria recusar-me ao convite feito pelo poeta de sentar à mesa e apreciar cerveja gelada - "pelo menos duas", ele disse! - naquela tarde...
Foi Erickson Luna que eu encontrei. E seria com Erickson Luna que eu tomaria umas boas cervejas naquela tarde quente... Cerveja tanta, que me esgotou os trocados guardados para comprar, de suas mãos, seu livro: "do moço e do bêbado". Bebemos o livro!
Erickson recitou, à mesa, alguns poemas - para o contantamento meu e de um vizinho professor, velho companheiro de copo e cruz do poeta, e para o espanto dos outros bebedores daquele boteco de esquina. Como de praxe, o poeta esbanjou seus galanteios - no jeito singularíssimo de dialogar com as mulheres...!
Rabisquei, depois, uns versos poucos para não esquecer daqueles instantes vividos, de Poesia Explícita e inesperada, num boteco qualquer. Erickson era (e será!), no entanto, maior que os versos que eu pudesse trazer para contar como foi bom ouvir e ver Erickson Luna, naquela tarde e em tantas noites recifenses. O poema ficou (e está...) incompleto, esperando mais força poética para corporificar-se inteiro...
Lembro que, entre alguma timidez e o fascínio por meu interlocutor, quis mostrar-lhe versos meus. Mostrei. Eram os originais - para a gráfica - de uma edição de nosso circulador-de-poesia "LinhasTortas". O poeta tomou os papéis com cuidado, olhou com atenção... perguntou-me quais, entre os poemas, eram meus. E disse: "é bom que vocês, jovens, façam essas coisas, fora dos esquemas que já existem!". Riu de alguma coisa. Disse: "tem coisa pra amadurecer, aqui... e amadurecendo!". Olhou-me mais de perto, puxando um pouco meu braço, e falou rindo: "não vou comentar Literatura! Fica chato numas horas...", e continuou, "Luciana, eu intuo um incêncio nessas suas palavras...". Riu mais... E não acrescentou qualquer outro comentário, antes de dobrar os papéis e enfiá-los em uma sacola. Nem ligou quando eu falei: "Erickson, esses são originais...". Decidi não ligar também! Quando, de novo, o poeta teria um LinhasTortas em suas mãos?, eu pensei. Por este motivo, uma das edições de nosso periódico foi impressa em papel ofício dobrado - porque eu, depois, me enrolei toda com a impressão de "novos originais/matrizes" para a gráfica - e boa parte das cópias eram mesmo xerox comum...
Não guardarei um exemplar de "do moço e do bêbado" autografado... Mas sei que é gostoso lembrar daquela tarde "vadiando", daquele dinheiro gasto sem o livro, daquelas conversas. E como é recifense saber que fez-se esta Cidade, Recife, também para que, por sobre seu chão, caminhasse um poeta chamado Erickson Luna!
Hoje, mais entristecida, como, certamente, estão as ruas e os botecos que o acolhiam (e conheciam tão bem), eu quero somente lembrar do porre, do dinheiro gasto inteiro em cerveja. Daquele instante, pra sempre fica/ficará, a poesia embriagora de versos e cervejas divididos com o poeta Erickson Luna!



MARIPOSA


Pra eu poder
e só
andar nas ruas
fez-se em volta uma cidade


Para se dar
mais colorido à noite
pôs-se acima os luminosos


E pra que eu
me sinta bem enfim
nesta cidade
há-se em mim um cidadão


Portanto livre
como o que é em noite
e que enche as ruas
perseguindo luzes
acordando
ainda que em sonhos
íntegro
ainda que meio-homem
plenamente meio
mariposa




Erickson Luna - 1958-2007

sábado, 31 de março de 2007

PONTUALMENTE



aprendi a espera,
mas isto não é, de modo algum,
um mérito,
tampouco acrescenta-me crédito,
aprendi a mentir, em verdade.


retiro um sorriso
esquecido nos bolsos e o gasto
sem pensar
nos encontros de amanhã...
reinvento-me nas horas.


já não tenho pressa alguma.
amanhã será (um pouco) o que eu pedi.
amanhã serei o que me fizer. eu sei
que não preciso me gastar em vão
e, então, me dou inteira em tudo...


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[Recife, Várzea do Capibaribe, Março de 2007. Luciana]
Imagem: Dalí, "Persistência da memória"

segunda-feira, 26 de março de 2007

Porque trazes céus nos olhos...













alimento-me de teus olhos.
não me olhes
sem trazer estrelas

em teu firmamento claro...
eu sei o Céu em ti.
amanheço à meia-noite
porque teus olhos conduzem luz.


antecipo as chuvas,
traço rotas
e, então, suspeito que descendes
(diretamente)
da magnitude dos oceanos.


embriago-me com teus olhos.
não baixes a vista
sem que eu me tenha impregnado de ti,
sem que eu me tenha encharcado
de mar ou de mel...


navegante de céus,
descobri teus olhos como planetário,
investigo a luz em tuas retinas...
não me olhes
sem que inventemos
sete luas,
mil explosões de estrelas.





[Recife, 25 de março de 2007. poema (ainda) sem título]

segunda-feira, 19 de março de 2007

Do Anestésico


No instante
Em que se dissipa o tédio
Fulgura a chaga, ainda,
Em meio ao torpor.

Infiltra-se a lama
Na pureza inventada,
Fuga malcuidada
Que a tontura inaugurou.

Neste instante,
Tudo,
Os olhos cansados,
O torpe pensamento,
A luz da emoção,
Traduz-se em nada...

O sono não nos esquece a dor!




[sobre os remédios todos, oficiais ou nem tanto, para levar a Vida - Recife, 2002]
Imagem: o Quixote de Portinari.

Vida. Vida. Vida...


segunda-feira, 12 de março de 2007

.andar com

Fé


Não conheço a Cabala.
Tampouco li o Corão.
Não contei quantas forças
e fraquezas trouxe Eva,
do homem, na costela de Adão.

De um coágulo de sangue,
preso a material cirúrgico
entre as minhas costelas,
Deus fez o milagre
de eu me descobrir barro...

Não o temor da Morte,
mas o pavor dos dias, todos,
em que não tenho vivido...
Eu, que não li o Mahabaratha
e desconheço a sabedoria dos Vedas!

Moisés prescreveu não tomar
O Santo nome de Iawhé em vão...
Com amor dizer Iawhé, Oxalá, Oxum.
E dizer Alá, Jesus, Brahma, Krishna,
no respeito de um dizer irmanado.

Não serei culpada, se não
me atingir alguma pedra. E, então,
serei livre por não ser profeta...
E não ofenderei a Deus,
de quem desconheço o Mistério.

Mas procurarei as Suas mãos, onde,
talvez, permanece a espátula de artesão
e ainda os calos do labor. Ou um corte,
quem sabe origem do coágulo...
e os restos do barro primeiro dos homens.


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[Recife, 2001 - Luciana]

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2007

Definição de "querer" - parte I



Fernando Pessoa disse - e eu acredito! - que ridículas são as pessoas que nunca escreveram uma carta de amor...
Carta-aberta, o Amor que a gente esconde, se publica! O Amor que da gente se esconde, comunica a sua ansiedade de chegar. E eu já não sei esconder o amor-que-quero porque uma coisa é ser louca, outra, é ser ridícula...







Entendi te querer
somente quando
percebi que te quis
em euforia de festa,
cantando alto sem seresta,
dançando na rua sem carnavais...

E somente
quando considerei a tua felicidade
em autonomia, o teu sono (sozinho)
em tua cama e o teu riso
sem as minhas brincadeiras ...

Entendi, então,
que eu te queria de qualquer maneira:
queria te ver sorrindo
(ou não te ver e saber que sorrias...),
queria te escutar resmungando,
queria te escutar ressonando,
queria acordar com o teu virar na cama...

Queria te ver em paz,
queria te ter em casa,
guardado para as noites frias...
Queria, ainda, te deixar sozinho
e jurar para mim mesma, no espelho,
que não pediria nunca para voltares
(até porque bem saberias o caminho...).

E eu te queria de cabeça-quente,
ou frio, quase gelado,
ameaçando acabar com tudo
e eu a te demover da (in)decisão com choro...

Eu te quereria também com pressa
e te quereria com calma,
porque te quero com alma
como te quero na carne
com as mil partes de mim
que pulsam
à recitação de um poema,
que estremecem
ante a visão de tua boca
e com a parte de mim
que te escolhe no jogo,
que te chama à dança,
que se queixa, mas não cansa
de te buscar...

E buscar, de ti, a voz.
Buscar, de ti, a língua.
Buscar, de ti, os dentes
e a mordida
e morder, em ti, a Vida.
Eu, que te busco como à comida
para não morrer de fome,
para não morrer de raiva,
nem de espera
ou frio...
Eu, que não guardo na boca
o teu nome
para encantar com tua luz
as noites sem graça,
para justificar incomposturas
no meio da praça
e para ousar dizer de ti
o que nem sabes...

Tudo, porque eu te quero assim:
ouvindo-me atento,
e espantado,
e sorrindo,
e sabendo...
Eu te quero pela insistência cega do querer!
Eu te quero cuidado.
Eu te quero remanso.
Eu te quero guerra,
alcançando todos os territórios de mim,
conquistando,
explodindo,
sem pausas, sem tréguas.

Eu te quero chão,
minha terra e leito,
lavoura e rio...
Quero-te ali, onde eu me deito.
Quero-te em chão macio
ou em terra molhada,
ceifarmos quando ainda é madrugada...
Quero este querer fértil...

Eu te quero sem mudança de endereço,
sem virar para o avesso,
sem virada de mesa...
Eu te quero sem mudança de hábito,
sem contrato
e sem consórcio...
Quero-te sem mudar nada de ti
ou de mim.
Eu te quero em tua casa
e te quero na minha.
Quero... Quero...
Quando estou contigo
ou sozinha,
quando me falta o que fazer
ou quando me foge o tempo.

Quero-te, portanto, para me envolver
em lugar da roupa,
para despir-te sem usar as mãos,
para dizer-te "amor" sem a boca,
para minha boca trazer-te mais que palavras.

Eu te quero em corpo
e quero alma - dilatada e pura -
para querer-te bem.
Eu te quero, enfim, poema de minha lavra,
coisa que me veio de dentro...

Eu te quero, profundamente,
no centro,
insabido,
desconhecido,
de mim.



[Poema sem título. Recife, Várzea do Capibaribe, 14 de Fevereiro de 2007]

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2007

De "uma velha página"...












“Como isso irá terminar?”, perguntamos nós todos. “Quanto tempo suportaremos esta carga e sofrimento? O palácio imperial, com engodos, atraiu os nômades, mas não sabe entretanto de que modo expulsá-los. O portão permanece fechado; os guardas, que outrora sempre marchavam festivamente de um lado para outro, postaram-se atrás de janelas gradeadas. A salvação da pátria vai depender de nós, os artesãos e comerciantes,
mas somos incompetentes para levar a cabo essa tarefa; e também nunca nos vangloriamos de poder realizá-la. Há um mal-entendido e por causa disso vamos à ruína.”
Trecho final de um conto de Franz Kafka...

sábado, 10 de fevereiro de 2007

"a saudade é tão grande... que até me embaraço!"




"Quando eu era assim
Bem menor
Não tive a fim, sei lá
De pensar em nós
Agora eu sei e entendo melhor
Vidente eu li no céu
Vai por mim, somos corpo e alma
Meu irmão, meu par
Quando a solidão
Se enredar em ti
E o coração dançar
Conta comigo
Eu quero estar, viu
A teu lado
E haja o que houver
Junto a ti, feito corpo e alma
Meu irmão, meu par
Sei que a vida vai aprontar
E o que vier, azar
A dois é fácil segurar
Se Deus deixar, viu
Meu amigo
Vou sempre estar aqui
Junto a ti, feito corpo e alma
Meu irmão, meu par"




["corpo e alma", Kleiton e Kleidir]

quarta-feira, 31 de janeiro de 2007

PILEQUE




Por meus olhos

o Capibaribe me bebeu.

E, embriagado, o Rio

percorreu toda a cidade,

confundindo aos poetas,

até que no mar,

com tanta água salgada,

me esqueceu.






["pileque", poema-anfíbio...precisará todo recifense disto? Por Manuel, João e Joaquim... E por Carlos, acredito: eu preciso!
Caminhando sobre uma ponte, Madalena de Dezembro]

utilidade decrescente (?)


Uso e desuso.
O Amor sem Lei
nem rei.
O Amor por hábito
e obrigação.
Multiplicar/dividir...
(sub)trair x somar.
O Amor?
De Lei,
uso e desuso.



["axioma", poema-cansaço. E era quase-carnaval em 2005]
Imagem: tela de Modigliani

A(s) queda(s)


Ainda ontem
um anjo
bêbado quase
derrubou-me
escada abaixo.
Entretanto,
há firmeza
no descomunal
desequilíbrio
que preparou-me
apenas
para quedas
premeditadas.
["tontura", um poema de escada. Ali, sentada nos degraus do Colégio de Aplicação/UFPE, em um outubro...]
Imagem: da arte de "De Chirico"...

Café com poesia...


Café forte.
Sonhos, nem tanto...
Incapazes de andar com as pernas
próprias,
quedam doentes.
Estômago instável, portanto,
pelo que me dói no que não fiz,
pelo que me custa a digerir,
pela fome submersa
na saciedade equilibrada...
E há tanta cafeína por dissolver
em mágoa
e sem nenhum açúcar.



[o "poema-expresso", luciana. Recife, data solta na lembrança...]
Imagem: fotografia de Bernardo Coutinho (b.)... Com poesia e tudo!

quarta-feira, 24 de janeiro de 2007

nas coisas, o amor...


As coisas que tu me dás,
tuas,
não te desfazes delas,
nem partilhamos o antes compartido
como despojos de guerra,
pontos de final...
As coisas que me dás,
tuas,
permanecem tão presentes
e possíveis
como nas estantes de teu quarto,
discos e livros,
como no traço de tua boca
este riso...
Porque as coisas que nos damos,
nossas,
antes, como agora,
nos dizem nós,
apertam nós,
e nunca partilharemos despojos
de nada...
Somos.
Seremos.


["coisa feita"; Recife, Rua do Hospício, 09 de Janeiro de 2007]

Pra o meu Senhor do Bonfim nem se zangar...!


Eu sou a chuva que lança a areia no Saara
Sobre os automóveis de Roma
Eu sou a sereia que dança, a destemida Iara
Água e folha da Amazônia
Eu sou a sombra da voz da matriarca da Roma Negra
Você não me pega, você nem chega a me ver
Meu som te cega, careta, quem é você?
Que não sentiu o suingue de Henri Salvador
Que não seguiu o Olodum balançando o Pelô
E que não riu com a risada de Andy Warhol
Que não, que não, e nem disse que não
Eu sou o preto norte-americano forte
com um brinco deouro na orelha
Eu sou a flor da primeira música,
A mais velha e mas nova espada e seu corte
Eu sou o cheiro dos livros desesperados, sou Gitá gogoya
Seu olho me olha, mas não me pode alcançar
Não tenho escolha, careta, vou descartar
Quem não rezou a novena de Dona Canô
Quem não seguiu o mendigo Joãozinho Beija-Flor
Quem não amou a elegância sutil de Bobô
Quem não é recôncavo e nem pode ser reconvexo.



["reconvexo", Caetano Veloso]


A cabeça quente se rende ao batuque, ao ritmo, à raiz.
Bethânia cantando os versos de seu mano Caetano... E eu pressinto que com fé, ritmo, paixão, dor, pulso, luz e vontade, se poderá re-contar páginas dessa história boa que é a Vida.
Caminho por fazer-se. Caminho ao fazer-me...


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IMAGEM: A. Gondin
Texto: da canção de Caetano Veloso

domingo, 21 de janeiro de 2007

Viver-viver... e mais viver!!!


Quem pagará o enterro e as flores
Se eu me morrer de amores?
Quem, dentre amigos, tão amigo
Para estar no caixão comigo?
Quem, em meio ao funeral
Dirá de mim: – Nunca fez mal...
Quem, bêbedo, chorará em voz alta
De não me ter trazido nada?
Quem virá despetalar pétalas
No meu túmulo de poeta?
Quem jogará timidamente
Na terra um grão de semente?
Quem elevará o olhar covarde
Até a estrela da tarde?
Quem me dirá palavras mágicas
Capazes de empalidecer o mármore?
Quem, oculta em véus escuros
Se crucificará nos muros?
Quem, macerada de desgosto
Sorrirá: – Rei morto, rei posto...
Quantas, debruçadas sobre o báratro
Sentirão as dores do parto?
Qual a que, branca de receio
Tocará o botão do seio?
Quem, louca, se jogará de bruços
A soluçar tantos soluços
Que há de despertar receios?
Quantos, os maxilares contraídos
O sangue a pulsar nas cicatrizes
Dirão: – Foi um doido amigo...
Quem, criança, olhando a terra
Ao ver movimentar-se um verme
Observará um ar de critério?
Quem, em circunstância oficial
Há de propor meu pedestal?
Quais os que, vindos da montanha
Terão circunspecção tamanha
Que eu hei de rir branco de cal?
Qual a que, o rosto sulcado de vento
Lançará um punhado de sal
Na minha cova de cimento?
Quem cantará canções de amigo
No dia do meu funeral?
Qual a que não estará presente
Por motivo circunstancial?
Quem cravará no seio duro
Uma lâmina enferrujada?
Quem, em seu verbo inconsútil
Há de orar: – Deus o tenha em sua guarda.
Qual o amigo que a sós consigo
Pensará: – Não há de ser nada...
Quem será a estranha figura
A um tronco de árvore encostada
Com um olhar frio e um ar de dúvida?
Quem se abraçará comigo
Que terá de ser arrancada?
Quem vai pagar o enterro e as flores
Se eu me morrer de amores?


["a hora íntima", do poetinha, Vinícius...]


"Quem me dera viver pra ver... e brincar outros carnavais!"


A vida, um dia estanca. Não gosto de fingir que não será assim... Por isso, abraço a vida com ânsia, paixão e zelo!
Por isso, esse jeito de querer fazer, das horas, Poesia.
Foto: Por Manuela Oliveira, em Itamaracá, fim-sempre-começo de festa, Sobrecú. Verão de 2007, quase-inteiro Carnaval.
Texto: do poema de Vinícius de Moraes.

quinta-feira, 18 de janeiro de 2007

Aprendo lições do Fogo...



Sou sua noite,
sou seu quarto
Se você quiser dormir
Eu me despeço
Eu em pedaços
Como um silêncio ao contrário
Enquanto espero
Escrevo uns versos
Depois rasgo

Sou seu fardo,
sou seu bardo
Se você quiser ouvir
O seu eunuco, o seu soprano,
Um seu arauto
Eu sou o sol
da sua noite em claro,
Um rádio...
Sou pelo avesso, sua pele,
O seu casaco,
Se você vai sair
O seu asfalto
Se você vai sair
Sou a chuva
Sobre o seu cabelo,
Pelo seu itinerário
Sou eu o seu paradeiro



["uns versos", adriana calcanhoto]


Foto: Por Manuela Oliveira, Manu. Aceso, o fogo da amizade, o fogo da Vida: paixão, paixões! Na trama dos dias-noites, fogo, esta luz criança...! Itamaracá, verão de 2007.

quarta-feira, 17 de janeiro de 2007

Do Carpinejar... Do amor e da amizade, então, de mim.

Enquanto eu posto este texto, toca o disco da Zélia Duncan: "eu me transformo em outras"... Certamente. Cada mulher se transforma em outras... Como canta Maria Rita, Pagú (pagando pra ver!): freira e puta. Mas, não... Isto já não me assusta... Decidi que há poesia (minha, porque abraço...) em outras coisas que não meus versos e, por isso, já não trago aqui apenas poemas - e poemas meus! Na insônia de ontem, eu li o Fabrício em seu Blog. Leitura boa. Leitura com sede, e fome, e cio... Eu quis! E, calmamente, depois, encontrei um texto que me fala de tantos amores... fica difícil acreditar que não fui eu! Apresento-o... "Escondo o Amor na Amizade", de Fabrício Carpinejar...


Eu respirava pela boca. A boca obrigada a falar e respirar ao mesmo tempo. O nariz preguiçoso, mais alto e forte, mandava nela. E ela obedecia. Não descansava os lábios. Entreabertos. Cumprindo um turno pela voz e o outro pelo sopro. Os dentes como lápis apontados pelo vento. Os lábios sem cola, sem comissura, sem liga. Os lábios levantando-se ao beijo todo sempre. No meio da escada. Meus lábios não dormiram sequer uma vez em minha vida. Do mesmo modo que trocava a boca pelo nariz, confundia a amizade com o amor. Não amei nenhuma mulher pela atração simples e direta. Pela beleza fulminante. Pela sedução lacônica e apressada. Não amei uma mulher à primeira vista. Meus amores foram a prazo, bem parcelados. Com o carnê cheio de folhinhas. Conversados longamente para encontrar a quietude. Observados, desesperados, lentos. Segurar inicialmente os braços, depois as mãos, bem depois o rosto. Amei pela convivência, pelas afinidades, pelas discussões, pelos cantos da chuva, pelo sol pintado do meio-fio. Amei na continuidade, no alinhamento do riso, nas brincadeiras involuntárias. Amei ao expor confidências ¿ as confidências já eram provas de que amava. Desabafei muito antes de amar, pedi muito ajuda antes de amar, fui incompreendido muito antes de amar. Amei durante a semana mais do que nos finais de semana. Amigo leal e pontual de uma menina, amigo inseparável, não tinha jeito: queria namorá-la. Não conseguia parar o corpo. O amor aparecia como compreensão inteira, dedicada. Não desejava uma mulher que não me entendesse, desejava quando ela me entendia. Percebia o amor como um segredo desde a escola. Um amigo secreto. Ele gosta de alguém e ninguém sabe. Ela gosta de alguém e ninguém sabe. Guardava-se uma paixão com coração e iniciais, sorrateiramente, na última página do caderno de matemática. Não era assim? Escondia o amor dentro da amizade. Não havia melhor esconderijo. A amizade me levava ao amor. Mas o amor, logo que encerrava, renunciava a amizade do começo. Não dava para voltar à amizade quando me declarava. Para continuar, a amizade não pode ter a consciência do amor. A amizade termina se o amor surge, a amizade termina igualmente se o amor acaba. Não mudei com o tempo. Amo pela amizade, respiro pela boca, converso pela respiração.

de Fabrício Carpinejar

segunda-feira, 15 de janeiro de 2007

Falando por mim, outra música.

Não quero sugar todo seu leite
Nem quero você enfeite do meu ser
Apenas te peço que respeite
O meu louco querer
Não importa com quem você se deite
Que você se deleite seja com quem for
Apenas te peço que aceite
O meu estranho amor

Ah! Mainha deixa o ciúme chegar
Deixa o ciúme passar e sigamos juntos
Ah! Neguinha deixa eu gostar de você
Prá lá do meu coração não me diga
Nunca não

Teu corpo combina com meu jeito
Nós dois fomos feitos muito pra nós dois
Não valem dramáticos efeitos
Mas o que está depois
Não vamos fuçar nossos defeitos
Cravar sobre o peito as unhas do rancor
Lutemos mas só pelo direito
Ao nosso estranho amor


("Nosso estranho amor", Caetano)

quinta-feira, 11 de janeiro de 2007

Auto-retrato (?)

Crédito no Banco
e vergonha na cara
são, nesta ordem,
as duas coisas que menos eu tenho...
O resto, de tudo,
eu invento:
pego arrêgo,
furto,
tomo de empréstimo,
finjo bem,
faço a pala...
Minhas mentiras, às vezes, me dizem.
No espelho, nenhuma delas se cala.


Luciana Cavalcanti - Janeiro de 2007.

O que faz a poesia?

Se eu fosse um padre, eu, nos meus sermões,
não falaria em Deus nem no Pecado
– muito menos no Anjo Rebelado
e os encantos das suas seduções,

não citaria santos e profetas:
nada das suas celestiais promessas
ou das suas terríveis maldições...
Se eu fosse um padre eu citaria os poetas,

Rezaria seus versos, os mais belos,
desses que desde a infância me embalaram
e quem me dera que alguns fossem meus!
Porque a poesia purifica a alma
...e um belo poema – ainda que de Deus se aparte –
um belo poema sempre leva a Deus!


(Mario Quintana)

terça-feira, 2 de janeiro de 2007

Desejos de Janeiro...


Saiba um amor que te sinta,
mergulhe por sede da pele,
delire em canção que não minta...
E feche os olhos,
e abra o peito,
encontre o mar.

Encontre o caminho de casa,
da casa invisível,
onde morarão teus sonhos,
onde moras já (sem saber).
Queira o amor,
dilate o querer,
dilate os dias,
comendo as horas sem pressa,
como fruta boaem dia de mar.

Saiba saber do desejo,
não se esquive (nunca!) ao bom do beijo
- nem se furte ao beijo roubado!
Sinta o amor do cuidado,
saiba das harmonias do silêncio
e cante. E dance. E seja...

Feche bem os olhos, se veja.
Ajuda, no escuro, ao parto
da Luz. Ilumina o olho cego das ruas,
desengaveta os poemas,
mostra a cara,
assume o sonho,
desnuda a alma...

E o mais certo de ti,
desnuda também, com calma,
porque em cada pele dorme
um bocado atrevido de luz.

Guarda a lua que vês,
três pedaços de crepúsculo
e dois de aurora,
para trazer nos olhos
à emergência do amor amado.

Não peça dos dias,
desperta em cada um
a vontade mais doida e boa
de te fazer sempre mais
feliz, feliz...

E seja
feliz com o que deseja
e desejante do que faz riso.
Criterioso sem ciso,
cuidadoso, sem medo...
Seja o mistério e seja claro,
seja aquele instante raro
em que se sabe beber o Eterno
nas bocas.

Seja uma verdade,
não última, nem primeira,
seja qualquer verdade verdadeira
de um amor que se quer para querer,
de um momento
que não te aceita sozinho,
de um viajante,
embriagado de caminho,
que deseja parar e olhar o sol.

Veja a estrela que arde,
aprenda a ouvi-las,
aprenda a dividir com as estrelas
a força
de multiplicar teus desejos,
de trazer os desejos pela mão,
de trazer o desejo nas mãos,
e estender brilho,
transbordante,
dos olhos ao chão de casa.

Saiba, de cór,
saiba demais, de ouvido,
a canção que te traz sentido
a um novo amor...
Saiba por um cheiro,
imaginar cores e formas.
E saiba inventar melhor depois.
Ou saiba nada. Esqueça um pouco...
E – de sexto sentido e outros cinco -
intua, de intuição descarada,
boa vida
para dois.

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...o primeiro poema do Ano Chegado. Peito aberto e ampliado... Vida sorrindo sorriso bonito e bom.
Escrita aberta...


Entretanto,
entre nós,
antevejo
a visão turva
do nada aceso
após a curva,
da mão sem luva,
sem pingos, os “is”.
Romântico e triste,
outro filme – até parece
que já o vi...

Entretanto,
acredito,
no que, míope,
vi bonito: o que podia ser...
Acerto de marchas,
toque de clarins,
toque do destino,
um Futuro-menino
brincando de pega-pega.
E esta sem-razão,
cabra-cega,
nos cegando os nós,
fazendo o eu-tu, nós,
amarrados no bom da Vida.

O visto e o re-visto,
os sentidos e o pressentido,
quis saber,
entrevi...
E me achei,
comendo as palavras,
os gestos,
a ausência
e a vontade,
entrelinhas, entreatos,
entre eu e você.

E entre o passado e futuros,
entre o pop e a Bossa,
entre estação e viagem,
entre o “curtir” e a fossa,
entre bloqueios e passagem,
entre o medo e o salto,
entre o carnaval e as cinzas,
a penitência e o riso,
o corpo e a alma,
minha mão e o telefone,
ansiedade e a calma,
meus versos e teu nome,
entre as vias e o fato,
entre os “nãos” e um “sim”,
possibilidade e ato,
permanências e fim...
Entre tudo, entre as ruas,
em que me encontro,
em que te encontro
- e quero encontrar!;
“entre” e “em” tudo
esteja escrito:
entre um pouco,
sinta-se em casa,
sinta-se em mim
e, entretanto,
sinta-se solto
entre as vidas
e todo estradar...


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Luciana Cavalcanti. Recife, Várzea do Capibaribe, 29 de dezembro de 2006; 17 horas.