quarta-feira, 29 de novembro de 2006


Esgotado

Decretar fechado o coração
como se fosse porta,
passiva a teu querer.
Declarar o coração refém
de teus medos todos,
do que é o teu não-ser.

Fechar o coração: não há mais espaços,
não há mais sonhos
e esgotou-se o tempo...
Correu-lhe entre os dedos, se esvaiu.
O tempo, na ausência da esperança,
vacilou, nem quis pensar...e fugiu!
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Luciana Cavalcanti - Recife. s/d.

terça-feira, 28 de novembro de 2006

De Estudos. E estudos...


poeira de biblioteca

Pela janela aberta,
uma visão qualquer
foi maior que o livro
que, agora, fechado
assiste ao recém-desfeito leitor.

Engano, porém, dar por finda a leitura.
O que, agora, o livro olha em seu leitor distraído
continua a leitura
(infinda) de quem vê o Mundo
e não se conforma: é tão pouco ver!

Dar-se à Leitura do Mundo,
qual tramas da palma da mão.
Leitura de tudo o que vive ou se move,
leitura da tela celeste, entorpecimento de azul,
leitura da água, cristalina ou turva,
das pedras, sólidos caminhos,
leitura para dentro, eu-objeto
(primordial) dos mais elevados estudos...

Aqui, o meu umbigo, ambíguo objeto
para a reflexão científica
ou a discussão do bar.

Um reflexo no espelho,
meu rosto impassível,
com marcas subterrâneas,
impossíveis de contar...

Tantas promessas gravadas
no livro precário e inconcluso
que repousa sobre a mesa de cabeceira...
Reunindo os recortes,
olhando velhas
e novíssimas fotografias
quase sinto espanto:
quanta gente,
quantas vozes, aqui dentro...!
E quantos são os meus olhos estrangeiros,
vagabundos, peregrinos,descobrindo paisagens novas no que sou.
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poema de Luciana Cavalcanti - Recife, s/d.
Tela de Roberto Magalhães

Decisões...

Apontamentos (II)

Desisti dos discursos longos,
dos argumentos todos
que se pretendem irrefutáveis;
das noites irresponsáveis também
– contraditoriamente.
E desisti de jogar o tempo fora,
de jogar “porrinha” na mesa dum bar...

Da ciência estéril,
da vã teologia,
dos risos facílimos,
das leituras densas,
do medo de morrer e,
ainda, da vontade do mesmo,
pois ficar é,
por hora,
um protesto silencioso,
uma vontade de rir incontrolável
– ou paixão contida?!?

Desisti de conter,
de contar,
de concluir.
E de protestar,
de adiar,
de resistir...

Quero sorver à Vida
como ao suco,
abraçar ao Mundo
como a teu corpo
com tudo o que sirva
ao gesto de estreitar objeto e desejo.

E quero, ainda, correr
ao mar como à poesia – com sede, calor, ânsia.
Fazer versos como quem se molha de chuva
antes do trabalho
(e perde a pompa toda, a elegância)...
Dispensar palavras na boca
que deseja traduzir-te a poesia
e sorrir
(precisamente como fazes)
ao perceber que entendestes
o recado, sem sombras
de dúvidas.
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LAC. Recife, 23 de junho de 2004.
Imagem: Tela "Mar Grande", de Pancetti, Brasil.

quarta-feira, 22 de novembro de 2006

Há Dez Anos...

Erro
(Setembro de 1996, Recife)

Folhas secas. Galhos secos.
Apenas o resto de um verde que já não há,
Do verde-esperança,
Do verde-bandeira,
Verde-paisagem.

Rouca voz. Grito vão.
Apenas tentativa de pedir socorro,
De pedir sossego,
De pedir esmola,
Pedir atenção.

Olhos embaçados. Visão turva.
E a última tentativa de fugir da sombra,
De fugir do caos,
De fugir do medo,
Fugir do nada.

Recriar. Reacender a chama.
O último desafio que valerá a pena,
Que valerá a chaga,
Que valerá o pranto,
E faz valer o erro.


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Mais Poemas na Garganta da Serpente:

http://www.gargantadaserpente.com/toca/poetas/lucianamancio.php

sábado, 18 de novembro de 2006

de palavra pouca

jeitinho

sob o sol
ante o mar
armar a tenda...

e abrigar
sem seleção
sem dilema

as palavras (todas)
em poema
de encomenda.

----------------------- Luciana Cavalcanti: Em 19/07/2005.

Corpo

Os nós
se desfazem
pelo sopro no ouvido.
No peito,
vacila o pulsar,
exausto de nós...

Resta a mão
que aprisiona os sentidos
do tato
nos sonhos
dos sós.


Tardança

Nem frio.
Nem quente.
O Amor segue...
Embora
descontente.


Narciso

Concreto ou abstrato.
O meu amor
em ti
(re)desenhar constante
auto-retrato.


101

o corpo
que esqueci
no meio

(ao atravessar...)

da BR
quando a Scania
veio.

---------------------------------- Luciana Cavalcanti (Poesia Restrita/pouca palavra...)

segunda-feira, 13 de novembro de 2006

Com a boca mais boa, dizer...

Quase Profecia
(Poema de Batismo II)

Para Victor Henrique: meu pequeno professor de Ternura.

Teu nome anuncia vitória.
Mas qual seria?
Fim de cercas, muros, dores...
Escravidão nenhuma.
E sempre nos caminhos, flores.
O Homem, por fim, liberto.
Ou seria isto muito?
Ou seria isto quase nada,
e melhor seria revolução em nossas vidas:
cada dia, encher de riso;
cada gesto, brotar da alma.

Vitória do sonho que transforma tudo,
Transfigura o Tempo.

Teu nome anuncia vitória.
Mas qual? Esperamos tantas...
O Reino Já, tal conquista seria?
Justiça entre nós. E a Paz,
assim na Terra como no Céu.
Ou os milagres de hoje são mais discretos?
E já não se faz chover maná no deserto...
Mas se quer o Homem solidário e pacífico,
cansado de guerras, como canso eu do trabalho vazio
que não mais me traz senão pão sem gosto?
Há Milagres cotidianos, agora. Feitos de ternura e luta.

Vitória do sopro primeiro: vocação
para, de amor, reinventar infâncias - Édens.

Teu nome anuncia vitória.
E não duvido: ela vem!
Sei que chega contigo (que cresce em mim).
Sonhamos tantas... Prevaleça, no entanto,
A vitória do canto,
teimoso, insistente,
no meio da dor, um canto que se inventa crescente
e zomba do escuro anunciando auroras,
e é maior que o medo,
e ultrapassa o alcance, o tom, a força de nossa voz
!

-------------------------------- Em Novembro de 2002.

sábado, 11 de novembro de 2006

Dois mundos...











O muro

Não fui eu que o construi,
no entanto, estático e arrogante,
ele dorme diante de mim.
E, imenso,
bloqueia a minha estrada.

Se há dois lados,
quem o construiu escolheu um só.
Eu não creio
que de lá não sintam saudades daqui,
que daqui não sintam desejo d’além...

Luciana Cavalcanti (Agosto de 1998, Recife)

terça-feira, 7 de novembro de 2006

...

Argumento

Noite.
Ardem as horas e o mundo
Dilui-se como, em água,
O pó
De meu chá.
Não eras lúcido,
Não eras forte,
Não eras tanto
Para surpreender-nos com tua luz...
Mas vieste
E tudo o que de tua boca nos veio,
Palavra,
Verdades, mentiras,
Penetrou mais que os ouvidos
Atentos,
Invadiu-nos os espaços
Até convencer-nos do medo
De nós mesmos.
___________________________LAC 25.AGO.01/Recife

sábado, 4 de novembro de 2006

Conceito de Amor - I


Sinopse

Eu não
acredito no Amor,
meu amor.
Não me faça promessas,
não me acredite feliz,
nem vá convencer-se
por qualquer sorriso meu...

Eu não vou
procurá-lo se, acaso,
em meio às minhas palavras,
você se perder.

Eu tenho tantos
silêncios, amor, escute.
Você ainda não sabe,
nunca me viu chorar.
Eu vivo por você...
E morro por você. Mais nada.

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por Luciana Cavalcanti (ou Amâncio... ou Araújo... ou como queira...). Recife - s/d.

...E o quadro do Dalí, que aqui tens, é chamado "Metamorfose de Narciso". E tenho dito!

sexta-feira, 3 de novembro de 2006

Persistência da Memória...


Arquivo

Não sei se corre
ou se morre,
o tempo que visita meu quarto.

É esquivo ou solícito?

Não sei se o procuro,
ou se aguardo...

E se o tempo telefonar?
O que digo?
Direi (talvez) que sinto sua falta.

Ou lembrarei que está em dívida comigo
- um favor ainda não atendido...

Não sei se me leva
ou me esquecerá,
diante de tantos detalhes ao fazer as malas...

Quando partir o tempo,
terei partido?
Ou ficarei no quarto
a olhar as fotos
de Amor Antigo?

(Luciana Cavalcanti)

De Chão e pernas e pés...


Passos

Caminha.
Até te sentires, na busca, ridículo.
Até sentires como patético o insistir.
Até que te vejas malvisto.
Até que te digas maldito.
Até que te queiras malquisto.

Então, te sentirás distante,
Ou sentirás que és disperso?

Em êxtases de crença ou dúvida,
Caminha...
E sorve essências de absoluto, ínfimo
Ou nada
Até sentires o não-sentir.
______________________________________________
(05.09.2000) LAC

> O quadro é de Salvador Dalí...

quinta-feira, 2 de novembro de 2006

...atrasou por que não vem?!?

Falta

I

Disposto o papel
e suficiente a tinta,
o Poema de Amor não vem.
Talvez, esteja apenas atrasado...
acordou mais tarde...
perdeu o ônibus...

Ou poderia ter ficado presa
a minha infinita ternura
no elevador...
retardando o percurso
do Poema de Amor...?

Talvez, ainda, o poema marcou
um encontro n’algum Café
com a Esperança
(para fazer-me surpresa ao vê-los juntos)
e, precavida, ela não foi
(para não estar a sós com um estranho)...

II

Por que não chega o Poema?
em seus versos ingênuos
de amante,
abrandando-me a Noite,
distraindo-me a Insônia...?
Por que nem telefonou?

Se eu dormir
sem notícias suas,
talvez
(por tanta ansiedade),
tenha um mau sonho
onde o Poema,
com amor, esperança e tudo,
terá morrido atropelado.
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LAC. Recife, s/d.